A Índia aos 60

Gateway of India (Portal da Índia), em Mombai (antiga Bombaim), símbolo do domínio britânico.

O dia 15 de agosto marca os 60 anos do clímax da bem-sucedida campanha de não-violência de Ghandi: a independência da Índia.

As verdadeiras comemorações de independência estão reservadas, normalmente, para os primeiros anos, quando ainda existe euforia. Para os mais distantes existe a intenção de homenagear aqueles que tiveram papel relevante no processo e estão nos últimos anos de vida. Com 60 anos sobra a reflexão. 1947 marcou o fim de dois séculos de presença britânica no subcontinente. Presença, claro, nefasta na moderna visão democrática, mas que no final foi benéfica para o país – ou países, pois depois de independente, o antigo domínio britânico foi se fragmentando com os anos e deu origem ao Paquistão, Sri Lanka (antigo Ceilão) e Bangladesh (Paquistão Oriental). A fragmentação subseqüente mostrou que a idéia de um país de pobres almas que caiu na teia de uma nação imperialista é bastante exagerada. Antes dos britânicos, a idéia da Índia como unidade política simplesmente não existia. Era uma ordem mais ou menos parecida com a feudal: marajás e rajás aqui e ali, reinos acolá, etc. Um mosaico impressionante de pequenos países. Para dar alguma homogeneidade, os britânicos usaram violência, mas na maioria dos casos, tornaram os pequenos reinos e principados Estados tributários ou clientes da Grã-Bretanha. Foi assim que conseguiram manter – como Lênin admirava, mas enganado quanto à forma – o domínio sobre 400 milhões de pessoas (à época da independência) com não mais que alguns milhares de funcionários e soldados. E era uma administração tocada com eficiência.

Às vezes precisamos encarar o estranho para nos darmos conta do que somos. Isso é uma meia verdade no caso indiano. Todos sabem que a Índia é uma sociedade composta dos mais variados extratos, e é bastante rígida e estamental. Nascer na casta errada pode, mesmo com os esforços do governo atual em coibir o velho costume, condenar o sujeito a uma existência miserável. Na maior parte do período britânico esse era o parâmetro que conduzia as relações sociais. Idéias de aspiração nacional ou de “vamos fazer daqui um lugar melhor” só foram absorvidas pelos indianos a partir da década de 1920 – a Revolta dos Cipaios de 1857, considerada por alguns precursora do movimento de independência moderno, na verdade foi uma reação contra algumas imposições da Companhia Britânica das Índias Orientais. E foram idéias importadas; sobretudo pela elite que teve oportunidade de estudar na Europa – o homem do povo, Ghandi, por exemplo, era advogado. Nos atrai a linha de pensamento que relaciona todos os problemas a causas externas e que escapam do nosso controle. A gritaria antiimperialista foi – e continua a ser – uma forma de se isentar da responsabilidade. Claro que existem casos como o de Ruanda e do Congo Belga, onde os colonizadores usaram da engenharia social à limpeza étnica para adaptar ou dizimar as populações; métodos que deixaram cicatrizes profundas nesses países. Mas esse não foi o caso da Índia. Lá, os britânicos se aproveitaram, como já falei um pouco antes, de uma estrutura social e política fragmentada já existente, para lucrar. Não estavam muito interessados em “europeizar” a Índia e converter os súditos em soldados de Cristo. Até 1857, a Companhia Britânica das Índias Orientais tentou fazer isso, mas diante da resistência, ela perdeu o monopólio. Uma administração da própria coroa, mais tolerante, assumiu a Índia e cessou os esforços de europeização. Nunca houve algo parecido com “nos ancêtres les gaulois…” nos livros escolares indianos. A Índia, ao contrário da maioria das colônias, sempre foi encarada como um bom negócio. E de fato era. Ruim? De certa forma sim, mas foi melhor que outros destinos. Lucrar ainda é menos prejudicial que colonizar almas. Entre um corrupto e um fanático, fique com o primeiro.

E, sim, a Índia foi uma vaca leiteira para a Grã-Bretanha, mas até ganhou algo em troca. Um judiciário moderno e sistemas de transporte – que revolucionaram a integração e a idéia de nação – foram alguns dos legados. Pode parecer pouco, mas não é: o país absorveu muito do melhor que a Europa tinha a oferecer, inclusive o sistema democrático, totalmente desconhecido antes dos britânicos. O próprio sistema colonial britânico era liberal. Um político populista como Ghandi teria facilmente desaparecido numa oubliette se atuasse numa Argélia francesa – ou numa Rússia soviética.
Excessos foram cometidos aqui e ali, especialmente no final, mas a garantia britânica de independência, datada de 1942, fez explodir os ânimos das facções rivais que pretendiam tomar o poder depois dos antigos senhores terem partido. Um fenômeno típico em todas as transições – quem acompanhou o fim do Apartheid lembra. A independência chegou nas primeiras horas do dia 15 de agosto de 1947. Os antigos colonizados estavam agora livres para fazer suas próprias besteiras. E as fizeram. Torno a repetir: como unidade política, a Índia não existia antes dos britânicos. Como então governar o país depois da saída deles? Resposta: da mesma forma. Ou melhor, quase da mesma forma: saindo os funcionários britânicos, uma classe de políticos profissionais, quase toda proveniente das castas superiores, e que não tinha a mínima idéia de como governar um país com eficiência, assumiu o comando da casa. Ódios que ficaram latentes durante o domínio britânico de repente renasceram: o Paquistão se separou e milhões de pessoas tiveram que escolher um lado, se tornando refugiadas. Um problema ainda bem vivo, agora agravado porque os dois países possuem arsenais atômicos.

Mesmo a fragmentação esconde uma união artificial: o velho sistema de Estados clientes, com suas dezenas de membros, foi dissolvido. Por vezes mantida pela força, uma nova ordem destronou os antigos marajás e começou a administrar tudo à distância. Nova ordem que continuou alienando a grande massa de indianos – o papel de meros coadjuvantes que desempenharam no processo de independência ficou bem óbvio. Nova Déli era tão distante para alguns do que Londres fora um dia. A pobreza, ainda o maior poblema do país, começou a ser combatida com a engenharia social. Uma das tentativas foi submeter mulheres à esterilização forçada para que parassem de gerar mais filhos e perpetuar a miséria.

Mesmo isso foi feito com má vontade. Acabar com a pobreza não era a prioridade dos políticos que lutaram pela independência. Lançar bravatas era a atividade favorita dos novos senhores. O “terceiro-mundismo”, que encontrou sua encarnação perfeita em Jawaharlal Nehru, presidente da Índia, chegou ao clímax em 1955, na conferência de Bandung (Indonésia), o G-20 daqueles dias. Incapazes de acabar com os problemas dos seus países, os líderes do Terceiro Mundo se lançaram a reclamar em conferências internacionais. O colonialismo tinha acabado: é tudo culpa do neocolonialismo agora! A nação que encabeçava o movimento antiimperialista começou, sob o pretexto de “libertar”, a anexar seus pequenos vizinhos. Assim foi a história do antigo domínio português de Goa. A escalada militarista chegou ao ponto do país travar três guerras com o Paquistão e uma com a China.

Enfim, a maior parte da história indiana está repleta de episódios tristes.
A boa notícia é que aos poucos muitos dos problemas do país estão sendo superados depois de 60 anos. O sistema democrático um tanto desvirtuado, legado pelos britânicos, é uma realidade, ainda que imperfeita. A pobreza ainda grassa no país, mas já existem 200 milhões de indianos pertencentes à classe média. A ojeriza terceiro-mundista à várias coisas oferecidas pelo ocidente arrefeceu: o país hoje recebe bilhões em investimentos externos, é um dos mais novos pólos de produção de software do mundo e já é a 12° economia do mundo. Só mais capitalismo, não o louvor à vida simples e recuperação da cultura ancestral, vai tirar o grosso das pessoas da miséria. Quem liga para castas se você tem os bolsos cheios de dinheiro?

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2 Respostas to “A Índia aos 60”

  1. Norman Chap Says:

    Véri véri gud. Me surpreendi esses dias de saber que Rudyard Kipling, o ganhador do Nobel, nasceu em Bombaim. Sangue inglês nas veias e pregando o “fardo do homem branco”, como citavam com certo desprezo os livros de história da escola. Não temos nada parecido no Brasil, talvez o padre Manuel de Nóbrega, mas coisa distante no tempo, naturalmente, pela diferença de contexto. Orwell também. Que bela influência para a cultura de um país.

    Na BBC esse mês vai passar uma série de reportagens sobre o Paquistão e a Índia modernos. Deve ser coisa boa.

  2. michele Says:

    faça uma pagina que fale especficamente os paises envolvidos no neocolonialismo da India, o modelo adotado, movimentos sociais de resistência e assim por diante!!!
    vlw pela atenção!!

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