São Paulo, 4 de agosto: “A Grande Vaia”

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Photo by Jean Struck

Foi bastante interessante a manifestação da “Grande Vaia” realizada em São Paulo. Estimei umas 4 mil pessoas na avenida Paulista e pouco mais de 2 mil no objetivo final da manifestação, o obelisco dos mortos de 1932, no parque Ibirapuera. Alguns blogs e sites de esquerda minimizaram e afirmaram que os manifestantes não passaram de poucas centenas. Mentira. Mas entre 2 mil e 4 mil pessoas? Ainda é pouco. Fracasso? Longe disso. Foi gratificante observar que, mesmo em número reduzido, ainda existem pessoas que não toleram os crimes do governo. Claro que são folclóricas e facilmente atacáveis pelos esclarecidos (ou cegos) de esquerda algumas cenas da manifestação: pessoas gritando cadeia para os corruptos enquanto carregavam seus lulus da pomerânia, uma série de besteiras ditas por um dos líderes no caminhão de som – quando a manifestação passou em frente a um supermercado de bandeira Pão de Açúcar, o sujeito pediu “uma vaia para Abílio Diniz, que vende produtos muito caros” – e as inevitáveis camisetas com o desenho estampado de uma mão com quatro dedos. Mas e daí? Era uma manifestação tímida, nascida depois do acidente do avião da TAM, que convocou os participantes principalmente pela internet, e que, mesmo antes de acontecer, já vinha sendo atacada como um movimento reacionário e mais todos aqueles termos típicos de um discurso de presidente de diretório acadêmico. Não contou com o apoio oficial de nenhum partido político, sindicato ou movimento estudantil. Os cartazes foram confeccionados pelos próprios manifestantes e a organização mal conseguiu pagar o aluguel do caminhão de som. Todos estavam lá por puro sentimento de indignação. Vão tentar desmoralizar o movimento como gritaria de certa velha direita que estava dormente, esquecendo que a oposição brasileira – se é que se pode chamá-la assim – praticamente não existe e se comportou de forma vergonhosamente derrotista nas últimas eleições – e que velhos nomes que eram sinônimo de demônio para a esquerda, Maluf, Delfim, Collor, estão agora alinhados com governo. Se pareceu um movimento de classe, ou velho fantasma reacionário, é porque a maioria das pessoas presentes pertencem àquilo que está espremido entre os ricaços e os pobres: a classe média. Classe que não conta com o paternalismo oferecido aos mais pobres e que não não é servida com o mesmo ambiente favorável para encher os bolsos de dinheiro como os ricos, e que, além disso, está totalmente abandonada politicamente pela oposição. Classe que sofre hostilidade aberta por parte do governo Lula (ou, no mínimo, um desdém daquele que deveria governar para todos). Classe que não conta com apoio de nenhuma ONG ou organização de direitos humanos. Que carreguem seus lulus da pomerânia então. Que não contem com a organização típica de movimentos fascistas que caracteriza a esquerda e permite reunir dezenas de milhares em manifestações totalmente despropositadas (como a visita de Bush) ou com a intenção de coagir (lembram da declaração chavista de Lula que também “vai botar gente na rua”?).
Não é apenas gritar contra a corrupção e incompetência, é observar que diante de um protesto tão pequeno o governo vestiu a carapuça. Mostra, mais uma vez, sua face autoritária e paranóica. Como classificar uma marcha pacífica como a de sábado como movimento golpista? Certo, algumas pessoas gritaram vivas para os “bravos soldados” (ecos de 1964) de uma base militar que se encontrava no caminho da manifestação, mas eram uns poucos jovens, e tudo isso misturado a centenas de críticas legítimas contra o governo. Pinçar só esses aspectos é pura desonestidade. É normal numa manifestação gritar coisas absurdas como a já citada crítica a Abílio Diniz ou os incontáveis FDP ditos contra Lula. Manifestações de esquerda costumam contar com frases e motivos muito piores, quando não descambam para a violência (o que não foi o caso de sábado). Os defensores do governo não têm moral nenhuma para reclamar. Não apresentam argumentos para defender as ações do governo, se limitam a denegrir os adversários.
A manifestação mostrou que em mais de quatro anos o governo não conseguiu dobrar toda população, que a aceitação de críticas passa longe da cabeça dos petistas e que, felizmente, ainda estamos longe ser um Estado policial – a patrulha pode gritar, botar seus companheiros na rua, desmoralizar, mas ainda não conseguiu proibir manifestação de rua dos que reclamam do “apagão moral” que assola o país.
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Obs: Foi curioso ver na manifestação a “elite branca” entoando velhos hinos da esquerda como “Para não dizer que não falei das flores“. Apropriação que deve deixar os defensores do governo ainda mais furiosos. Ah, quando não obrigatório numa solenidade, mas cantado por uma multidão insatisfeita, o Hino Nacional é lindo. Pensei na velha manchete da Tribuna da Imprensa: “Somos um povo honrado governado por ladrões”.

Obs2: Ótimo o discurso de um dos líderes ao pedir para os manifestantes abraçarem o obelisco. “O monumento que celebra tudo que o atual governo combate: a luta pela constitucionalidade e contra o autoritarismo.”

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2 Respostas to “São Paulo, 4 de agosto: “A Grande Vaia””

  1. alina Says:

    Você assim é sempre divertido e elegante.
    E as fotos?

  2. J-P. Albert Struck Says:

    Lina: divertido e elegante? Tem certeza que vc postou no blog certo? rs
    Vou esperar a revelação das fotos (é, velha máquina analógica…).

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