“God made the country, and man made the town.”

la gloire d´agamemnon
Photo by Mathieu Struck
Licensed under CC-BY-NC-ND

Por uma bagatela, em tempos de destruição da Pracinha do Batel, adquiri um livro sobre planejamento urbano – ou melhor, sobre os efeitos danosos do planejamento -, escrito por uma senhora nova-iorquina há mais de 40 anos. Morte e Vida de Grandes Cidades (em inglês, The Death and Life of Great American Cities), de Jane Jacobs. Já tinha ouvido falar da ativista Jacobs num documentário sobre a destruição da bela Pennsylvania Station de Nova York (construção magnífica, que provava que estações de trem também podem ser arte, posta abaixo para dar lugar a um monstrengo de linhas presunçosamente modernas), que a mostrava lamentando a perda para a cidade e fazendo comentários nada elogiosos sobre o chefão do planejamento urbano, Robert Moses. Em seu livro, escrito num estilo direto e com pleno domínio do assunto, Jacobs mostra uma linha de pensamento bem original sobre vários dos lugares-comuns dos muitos problemas urbanos. Não acredita, por exemplo, que os carros sejam os grandes inimigos das cidades, mas sim os planejadores, que estão presos às mesmas velhas teorias e não conhecem nada da realidade. É irônico o fato do próprio todo-poderoso Robert Moses, fanático por vias expressas, que por três décadas mandou e desmandou no sistema viário nova-iorquino – tendo mais poder e dinheiro disponível que os prefeitos da cidade -, não possuía carteira de motorista. Médicos obscurantistas que insistem em realizar sangrias nos pacientes, mesmo que a experiência mostre que isso só os enfraquece. Jacobs admite que uma cidade não pode ser comparada a um corpo humano, mas traça um paralelo sobre insistir na insensatez, caso dos planejadores que pretendem solucionar o problema de trânsito com mais espaço para carros. Demonstrando através do conceito da retroalimentação (uma situação leva a uma ação, que gera uma reação que intensifica a situação original) que abrir espaço para mais carros é aumentar a demanda. Gerando um ambiente favorável aos automóveis, eles se multiplicam. A rua A, que foi alargada para dar mais espaço, começa a despejar os carros na B, que, por sua vez, gera mais pressão na C e assim por diante. Com mais carros é preciso mais espaço para estacionamento, e tal espaço só é encontrado cada vez mais longe dos centros, gerando o que ela chama de “erosão urbana”, a descentralização da cidade, grandes espaços vazios e decadentes que ficam ao longo de grandes vias. Ambiente favorável aos carros também afasta as pessoas do transporte público. Por que andar de ônibus se eu posso me deslocar de carro? Mais válido para os EUA, onde possuir um carro é mais fácil que se registrar para votar, mas também aplicável para Curitiba, onde é comum as pessoas utilizarem o carro para cobrir distâncias ridículas. A solução seria banir os carros? Sim e não. Jacobs mostra o exemplo das ruas para pedestres dos EUA (construídas muito antes da tão alardeada Rua XV), que já eram um fracasso na década de 1950. As pessoas se deslocam atrás de serviços que só podem existir com a presença de veículos de serviço (caminhões de entrega, mas também táxis e ônibus). É algo natural do ser humano ir atrás do movimento. Em subúrbios-modelo dos EUA, onde a fachada da casa dava para uma via arborizada de pedestres e os veículos de serviço e automóveis se deslocavam por uma pequena via de acesso atrás da casa, aconteceu que a área de serviço das casas acabou virando a fachada – algo não previsto no projeto. As pessoas simplesmente preferiam ficar perto dos carros e do movimento. Uma solução mista parece para Jacobs a mais viável: investir maciçamente em transporte público, desestimular a construção de grandes vias de mão única (as nossas rápidas), diminuir a velocidade máxima permitida nas ruas, mas sem restringir o acesso aos carros. Jacobs admite que não existe solução mágica para os problemas de trânsito, mas aponta que tudo que vem sendo tentando na últimas décadas só agravou a situação. Outra preocupação da autora é com a diversidade das cidades. Residências, lojas e grandes negócios, da mistura disso tudo resulta a concentração que garante a diversidade, e é sinal de vitalidade das grandes cidades. Ela identifica os projetos do arquiteto francês Le Corbusier (pai de todos os conjuntos de amianto) com uma postura que é ao mesmo tempo ingênua a autoritária – ignora como as cidades foram se desenvolvendo e propõe um novo modelo que se assemelha a uma utopia urbana. Na Ville Radieuse de Le Corbusier – embora o modelo originalmente não seja dele, mas baseado na Cidade-Jardim de Ebenezer Howard – não há quadras curtas, os serviços ficam perfeitamente separados das área das residências e há gramados, gramados e gramados. Isso foi levado a cabo. No East Harlem de Nova York, para despero dos arquitetos, os moradores foram aos poucos modificando as fachadas, não apreciando a ordem perfeitamente monótona das construções. De qualquer forma, foi apenas um problema menor: aos poucos, os conjuntos foram virando grandes cortiços verticais. Não havia estímulo para ficar num lugar em que era preciso andar meia hora para comprar um sanduíche. Os centros comerciais, longe das áreas residenciais, ficavam desertos depois de certo horário. A economia local, baseada no comércio de rua – e que garante muitos dos empregos na cidade – havia sido destruída. Para tudo era necessário o carro, o movimento de pedestres nas longas ruas era quase nulo. Um grande fracasso, as cidades-jardim ainda continuam a encantar alguns projetistas. Crítica dos grandes projetos de renovação urbana – a Ville Radieuse sendo o mais notório deles, Jacobs acreditava num modelo parecido com o Greenwich Village de Nova York, bairro que concentra não só muitas residências, mas como também estabelecimentos comerciais e até pequenas indústrias.
Morte e Vida de Grandes Cidades é um livro ambicioso e apaixonado, mas, sobretudo, uma obra envolvente. Trata, além do trânsito e da diversidade, temas que parecem diversos, mas que estão perfeitamente ligados na complexa experiência urbana: o uso das calçadas, a preservação de prédios antigos, a economia, entre outros. Escrito numa época em que Nova York e outras grandes cidades americanas se tornaram imensos canteiros de obras, graças ao boom econômico do pós-guerra, Morte… pode ser resumido como uma defesa das cidades tal como elas se desenvolveram e um ataque aos fracassos dos arrogantes planejadores urbanos. A lição disso tudo? A pretensa ordem, estabelecida pelo menosprezo e ignorância das necessidades de uma cidade, é muito pior que a feiúra e a aparente desordem.

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2 Respostas to ““God made the country, and man made the town.””

  1. Alina Prochmann Says:

    Genial. Por isso nunca teremos carro, certo? Até porque é muito charmoso atravessar a cidade falando sobre melão, tartaruga e guarda-chuva com você!

  2. Alina Prochmann Says:

    Ah, linda foto! Quando sai o livro? Vai ter um, não?

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