Archive for agosto \28\UTC 2007

Deu no NYT

terça-feira, agosto 28, 2007

Bastante interessante esse artigo do Larry Rother sobre os abusos cometidos em nome do combate à biopirataria no Brasil. Rother, que já está de malas prontas para sair do Brasil, conta a história de Marc van Roosmalen, biólogo holandês naturalizado brasileiro, um especialista em macacos condenado à prisão por supostamente violar as leis que protegem a natureza brasileira. Roosmalen foi condenado a 16 anos de cadeia, mesmo sendo réu primário, por, entre outras coisas, ter batizado as espécies de macaco descobertas por ele (cinco no total) com os nomes de seus patrocinadores – uma prática que não é estranha para qualquer um que já tenha lido um livro sobre exploração. Fazer homenagens, ainda mais com nomes de estrangeiros, é considerado apropriação indébita pelas autoridades brasileiras.

Nada mexe tanto com o nacionalismo brasileiro quanto a biopirataria. É comum pessoas que nunca viram uma fruta da Amazônia ficarem vermelhas de raiva quando falam do “nosso cupuaçu”, patenteado pelos japoneses. Triste é constatar que, diante de tantas dificuldades, os cientistas estrangeiros sérios estão desistindo do Brasil, e que a vida também não está fácil para os cientistas nativos. Resultado de um típico nacionalismo vagabundo que se converteu em xenofobia.

Há dezenas de livros sobre naturalistas estrangeiros que se encantaram com a fauna brasileira no século XIX – e nós gostamos de celebrar isso. Hoje, provavelmente, eles teriam uma vida difícil. Darwin nem sentiu vontade de descer do Beagle quando aportou no Brasil. Se descesse hoje, ia ver o sol nascer quadrado por incluir as espécies nativas numa teoria evolutiva.
Acho que essa história ilustra a que ponto pode chegar a arrogância nacional: na Alemanha em ascensão do final do século XIX, um funcionário ferroviário conhecia todos os passageiros habituais do seu vagão, incluindo um inglês, a quem ele nunca pedia para mostrar o passaporte. Um belo dia: “me mostre seu passaporte”, disse o funcionário alemão. “Mas por quê? Você me conhece e nunca o pediu durante todos esses anos!”, replicou o inglês, que ouviu como resposta: “É que nós alemães agora temos uma marinha.”
Nós temos Lula.

Paris, te amo

segunda-feira, agosto 27, 2007

Filme em episódios? Parece sinônimo de muitas das pornochanchadas brasileiras – que escolhiam um tema, digamos, universal, como empregadas e patrões, para mostrar vários curtas repletos de sacanagem. Não assisti Paris Vu Par…, filme de 1965 com seis episódios passados na capital parisiense, dirigido por vários cineastas da Nouvelle Vague – um filme de diretores com pontos de vista semelhantes, o que deve conferir à película uma certa unidade.

Em cartaz, Paris, te amo (2006), é um filme de episódios (18 no total, com títulos que designam bairros de Paris) com a mesma proposta de Paris Vu Par…, mas com um resultado um tanto irregular. O formato, pelo menos, foi acertado: cada episódio não passa dos cinco minutos; o que pode ser ruim nos curtas que nos deixam com a sensação de querer mais, mas é um seguro, por assim dizer, contra algumas das tolices que fazem parte do filme. Não há muita ambição (a abertura do filme sinalizava algo pretensioso, ainda bem que foi só impressão), apenas a vontade de contar histórias simples. A maioria é repleta de melancolia (aliás, a primeira coisa que me vem à cabeça quando penso no esprit francês), histórias de amor que não se concretizam, que terminam e outras sensações de perda.

Meus episódios favoritos foram o de abertura, Montmartre, que conta a história de um daqueles franceses tipicamente neuróticos, que briga por uma vaga de estacionamento e termina por ajudar uma mulher que desmaia ao lado de seu carro; Quartier des Enfants Rouges, sobre uma atriz americana (a bela Maggie Gyllenhaal) que mostra um interesse romântico num traficante e acaba frustrada; Quartier Latin, dirigido por Gérard Depardieu, que mostra o encontro de um velho casal (o marido interpretado por Ben Gazarra, boa surpresa) num bar para acertar os detalhes do divórcio; 14e arrondissement, talvez o mais simpático de todos, acompanha a visita de uma turista americana, uma white trash, à capital francesa, com narração da personagem acompanhada de seu forte sotaque (curso de dois anos de francês), terminando com uma bonita observação sobre o que é gostar de uma cidade. Também adorei Bastille, dirigido por Isabel Coixet, mas explico: o episódio, que conta a história de um marido que pretendia se divorciar e muda de idéia quando sua esposa lhe conta que sofre de leucemia, é banal no conteúdo, mas tem aquela narração em primeira pessoa tão doce e cheia de nostalgia que sempre achei linda nos filmes franceses (La Gloire de Mon Père, Le Château da Mère, Rue Paradis), e que só funciona quando falada em francês. Mas o lado neurótico dos gauleses também rendeu um bom episódio: Tuileries, dos irmãos Coen. Steve Buscemi é um turista americano que leva uma boa surra depois de ficar encarando um casal de namorados no metrô de Paris. É o episódio mais engraçado da coletânea.

Agora, os podres. O pior episódio, sem dúvida, é o estrelado por Elijah Wood, que interpreta um turista americano – é, o filme está repleto deles – que se envolve com uma vampira. Uma porcaria sem sentido. Também achei péssimo, por ser tão previsível, o episódio dirigido por Walter Salles: uma babá latina que deixa seu filho na creche para ir trabalhar cuidando de uma criança rica; no percurso, batidas cenas de baldeação no metrô. O queridinho do momento, Alfonso Cuarón, também dirige um episódio totalmente equivocado, Parc Monceau, com Nick Nolte. É um daqueles filmes que pretendem nos fazer acreditar em algo, no caso uma história amorosa entre Nolte e a mulher que o acompanha, para em seguida revelar que as aparências enganam. Um filme de minuto feito por um bando de estudantes não teria sido pior. De brinde mais um daqueles inúteis longos plano-seqüências que tanto fazem babar os fãs de Cuarón. Outro filme que peca pela história é Faubourg Saint-Denis, editado quase como um videoclipe pelo diretor Tom Tykwer, o mesmo do “sem-tempo-para-recuperar-o-fôlego” Corra, Lola, Corra.

Existem ainda alguns episódios que ficaram no meio do caminho. É o caso das histórias que apresentam indivíduos à parte da sociedade francesa: a menina muçulmana e o imigrante nigeriano. Quais de Seine, pretende ser uma lição de tolerância mostrando o encantamento de um garoto francês por uma menina de chador. Talvez seja importante, ainda mais na França, com toda aquela novela de proibir símbolos religiosos em escolas, mas o episódio não precisava ser tão didático (“Eu uso o véu porque…”). A história trágica do imigrante nigeriano em Place des fêtes até é interessante, mas fica uma sensação de politicamente correto.

Tirando a irregularidade que se poderia esperar de uma produção desse gênero, Paris, te amo, ainda assim, é um filme agradável. As quase duas horas passam voando e o que fica no espectador é algo parecido com as observações sobre Paris da rechonchuda turista americana que fecham o último episódio.

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O Autor no L´hôtel national des Invalides, Paris, 1994

A longa noite do Zimbábue

terça-feira, agosto 21, 2007

No NYT: Líderes africanos não pressionam o presidente do Zimbábue por mudanças

No tempo em que eu ainda usava uniforme e tinha que agüentar muitas aulas chatas de física, achava que as poucas aulas de geografia e história que eram ministradas no colégio Bom Jesus seriam um alívio. Não foi bem assim. O ambiente era sufocante e as aulas dessas disciplinas eram tão relegadas quanto numa escola pública. Os professores nos serviam com um festival impressionante de simplificações grosseiras. Não tinham uma postura séria. Acho que acreditavam que história e geografia devem ser “divertidas” e, por conseqüência, mais digeríveis. Era o sistema “O Quinto dos Infernos” de ensino. Dom João VI escondendo coxinhas nos bolsos; insinuações sobre a homossexualidade deste ou daquele líder; o lembrete que não existem imigrantes, mas “criminosos e putas que foram expulsos da Europa”, e que todos descendemos deles. Era isso que aprendíamos. Um professor de geografia que também era adepto desse sistema, mas com a diferença que posava de comunista e defensor dos oprimidos, comentou, certo dia, numa aula sobre geopolítica africana, os acontecimentos no Zimbábue. Era o ano 2000.

Nessa época, Robert Mugabe, o presidente do Zimbábue, estava promovendo chacinas esporádicas contra fazendeiros brancos no seu país, com a intenção de forçá-los a vender suas terras para o governo, por um preço camarada, claro. Era o ensaio de um genocídio. Mas na visão do meu professor, um ato de justiça: “Os brancos não tem mais nada para fazer na África”, disse. “[O governo do Zimbábue] tem mais é que expulsá-los”, completou. E depois começou a discorrer sobre uma idéia absurda de que a CIA teria inventado a AIDS para matar os negros africanos de uma maneira discreta e barata. Um caso de hospício, como podem ver, mas que era matéria valendo nota. Nunca achei que meu professor era uma peça relevante da engrenagem revolucionária gramscista. Era ignorância mesmo. Ele era só um pobre diabo que leu Caros Amigos além da conta e começou a sofrer os efeitos colaterais. Mas não é de ignorância que os líderes africanos e de alguns países ocidentais sofrem no caso do Zimbábue. É pura má-fé ou cumplicidade mesmo. Ninguém melhor que os vizinhos do Zimbábue para saber da catástrofe que assola o país: são eles que têm que abrigar os milhões de refugiados. A partir daí, é especialmente revoltante ler que Mugabe é recebido com aplausos nas conferências africanas ou quando aperta a mão do presidente da França, Jacques Chirac, às vésperas da segunda guerra do Iraque, quando o Zimbábue ocupava cadeira temporária no Conselho de Segurança da ONU. É uma atitude típica desses países fazer vista grossa para abusos. Por muito tempo os vizinhos de Uganda não deram um pio quando Idi Amin arruinava seu país; a oposição ao apartheid sul-africano e a solidariedade aos negros deste país, era mais retórica que qualquer coisa – o Rand, o dinheiro do governo branco que era a única moeda de valor da África, sempre falou mais alto. Quanto a França…bem…é a França. É só pegar um livrinho sobre Ruanda para saber que a atitude do Eliseu não é surpreendente.

Numa coisa meu professor não estava enganado: a mídia Ocidental só deu destaque para o caso dos fazendeiros porque se tratavam de brancos. Pode se explicar porque é uma minoria mais bem organizada, com vários parentes nos países ocidentais. Enfim, um grupo que não aceita facilmente imposições e sabe gritar – ainda que sem tirar algum resultado. Mas o caso é que a reforma agrária forçada é só a ponta do iceberg. Como num velho filme que não se cansa de reprisar, são sempre os negros as maiores vítimas dos governos brutais de seus países. Um pouco de história: o moderno Zimbábue começa no final do século XIX, quando Cecil Rhodes, um ambicioso empreendedor britânico, resolve estabelecer uma colônia ao norte dos territórios ocupados pelos africâners (ou bôers, brancos que emigraram para o que hoje é a África do Sul e recusavam submissão à coroa britânica), com a intenção de ser um contraponto a eles. Com os nativos subjugados, o território da colônia deu origem as duas Rodésias (a do Norte, depois Zâmbia, e a do Sul, que viria a ser o Zimbábue), sendo que elas foram administradas separadamente. A Rodésia do Sul se revelou um empreendimento mais bem-sucedido. Em 1953, numa decisão que se revelou bastante errada, o governo britânico resolveu juntar novamente as duas Rodésias e adicionar o Malawi, outra colônia, no que ficou conhecido como Federação da Rodésia e Nyasaland. Em 1963, a federação foi dissolvida, o que animou os brancos da Rodésia do Sul a declarar a independência da Grã-Bretanha em 1965. A independência não foi reconhecida, e o país sofreu sanções, sendo totalmente isolado da comunidade internacional. As sanções foram impostas porque o país se revelou um clone perfeito da África do Sul, com seu próprio sistema de apartheid e a maioria negra totalmente alienada do poder. Nos anos 1970, movimentos de guerrilha brotaram por todo o país. Um deles, o Zimbabwe African National Union (ZANU), movimento de inspiração maoísta, era liderado por Robert Mugabe. A África do Sul simpatizava com os brancos da Rodésia, mas já tinha problemas suficientes com seus negros, e não queria ser arrastada para um outro conflito. Então, em 1979, o presidente da Rodésia, o fazendeiro Ian Smith, foi obrigado a fazer concessões.

Mugabe assumiu o poder na Rodésia em 1980, agora com a independência reconhecida e com novo nome, Zimbábue. Desde então, governa com mão de ferro. O que prometia ser um novo começo se revelou um novo capítulo do pesadelo que acomete o país. Um Estado cheio de injustiças, apesar de tudo o Zimbábue era uma exceção na África: rico, com muitas riquezas naturais, com boa estrutura e nível satisfatório de educação, era auto-suficiente. Tudo foi sendo violentamente destruído nos anos Mugabe. A aura de democrata deu lugar ao genocida na década de 1980, quando fez uso da “Quinta Brigada”, um grupo de soldados treinados na Coréia do Norte (!), para reprimir e matar 20 mil pessoas da população ndebele, os zulus do país. Dissidentes e opositores do novo regime eram simplesmente eliminados. Mugabe aboliu o senado e começou a governar através de um sistema de politburo parecido com o dos soviéticos. A população branca do país, que à época da independência contava mais de 200 mil pessoas, fugiu do país. Hoje não chega nem a 60 mil. Isso teve o efeito de jogar a economia no buraco e abrir as portas para a hiperinflação (9.000 % ao ano). Sempre com a intenção de manter o país em “revolução permanente”, Mugabe se volta contra um novo grupo. Em 2000, foram os últimos fazendeiros brancos, o “ato de justiça” do meu professor, que também teve como resultado a instalação da fome num país que antes fora um exportador de alimentos. Agora, são os favelados negros do país, pela Operação Murambatsvina (literalmente “eliminação do lixo”), sob o pretexto de limpar áreas de ocupação ilegal e infestadas de doenças. A “Tsunami do Zimbábue”, como também é conhecida, já expulsou de suas casas mais de 300 mil pessoas. Outras 2 milhões estão na mira.

Economia em frangalhos, governo autoritário, fome, expulsão, epidemia de AIDS, envolvimento nas guerras de outros países africanos: o legado do governo Mugabe é uma tragédia. Existem 3,4 milhões de refugiados zimbabueanos nos países vizinhos (a maioria na África do Sul); 31 % da população adulta está infectada com AIDS; a expectativa de vida, que em 1965 era de 60 anos, hoje não passa de medievais 37 anos; o desemprego atinge 80 % da população economicamente ativa. Intimidação e fraudes são a norma das eleições promovidas pelo governo. Um judiciário independente não existe, a liberdade de imprensa é uma miragem (também para os estrangeiros: a CNN e a BBC nem podem pisar no país). Em março de 2007, um encontro de opositores do governo terminou com a prisão de 50 deles, sendo que a maioria sofreu maus-tratos físicos na prisão. Como nos anos mais duros da URSS, aqueles acusados de crimes econômicos também são perseguidos: em junho deste ano, Mugabe determinou que os preços de todos os produtos fossem congelados e quem não respeitasse as medidas fosse processado; já são mais de sete mil pessoas aguardando serem julgadas, desde presidentes de empresas até camelôs. Enquanto Mugabe é aplaudido, a lista de absurdos no Zimbábue não pára de crescer.

Capa

sexta-feira, agosto 17, 2007

Nasceu como Endre Ernő Friedmann em 1913, na Hungria. Ficou famoso como Robert Capa e morreu em 1954, quando pisou numa mina enquanto fotografava a Guerra da Inochina. Final triste, mas previsível para um fotógrafo que se especializou em cobrir conflitos. Guerra Civil Espanhola (1936-39), a segunda guerra sino-japonesa (1937-45), a primeira guerra travada entre Israel e os árabes (1948 ) e, claro, a Segunda Guerra Mundial. Na Espanha, tirou a que talvez seja uma das fotos mais conhecidas do século XX (só deve perder para os americanos de Joe Rosenthal erguendo a The Stars and Stripes em Iwo Jima), A Morte do Soldado Legalista (abaixo). Como qualquer foto que ganha notoriedade, a autenticidade de A Morte é bastante questionada. Não importa. Na Segunda Guerra Mundial, Capa esteve em todo teatro que se possa imaginar: Norte da África, Itália, França e Alemanha. Desembarcou na primeira leva de Omaha Beach (a “Omaha Sangrenta”), no Dia D. Bateu uma centena de fotos dos primeiros momentos do desembarque. Um descuido do revelador, a quem ele depois confiou os filmes, destruiu a maior parte das fotos. Só oito sobreviveram. Ainda assim impressionantes, elas dão uma boa idéia da violência da batalha. Só resta imaginar o que havia no material destruído. Não só soldados ilustram as fotos de guerra de Capa: todos os que foram afetados foram retratados. Uma coleção de crianças famintas, os acertos de contas depois da ocupação e ruínas e mais ruínas foram capturadas pelas lentes do fotógrafo. Quando não havia guerra, Capa se ocupava em retratar momentos mais simples da vida, mas não menos fotogênicos e dramáticos: são dele as mais bonitas fotos que retratam o nascimento do Estado de Israel, o cotidiano de Picasso e cenas da política francesa. Em 1947 se juntou com os fotógrafos Henri Cartier-Bresson, David Seymour e George Rodger e fundou a agência Magnum. No ano seguinte, junto com o escritor John Steinbeck, publicou Um Diário Russo (aqui no Brasil saiu recentemente pela Cosac & Naify), livro que mesclava fotografias e texto, mostrando a vida de gente simples no país de Stalin. Um Diário Russo foi bastante atacado, tanto por esquerda e direita, por sua honestidade. Steinbeck e Capa preferiram mostrar a vida cotidiana dos habitantes, passando longe dos clichês de paraíso ou inferno sob governo comunista. Nos anos 50 seguiu para mais uma guerra. Desta vez na Indochina, onde os franceses travavam uma luta que já se arrastava por oito anos contra os rebeldes comunistas. Encontrou a morte no dia 25 de maio de 1954. Seu corpo destruído por uma mina ainda portava a máquina fotográfica quando encontrado.


Capa (fotografando) e Steinbeck, enquanto produziam Um Diário Russo. 1948


Indochina, 25 de maio de 1954, foto tirada no dia da morte de Capa


Troina, Itália, 1943


Os conquistadores soviéticos sendo fotografados em Berlim, 1945


Gene Kelly flutua num ensaio. 1953


Haifa, Israel, 1948. Imigrantes


A Morte do Soldado Legalista. Espanha, 1936

Mais fotos de Capa estão disponíveis no site da agência Magnum
Sim, a mesma que coloca essas logomarcas feias nas fotos acima, mas compensa com um acervo de quase mil fotos do fotógrafo.

Un faux texte

sexta-feira, agosto 17, 2007

A luz tímida luta para refletir na quinta garrafa de cerveja. Na esquina desolada se ergue uma igreja, já esvaziada, que parece encarar toda a decadência a sua volta com magnífica indiferença. Nas escadarias, um grupo bem diferente dos habituais fiéis parece se divertir; enquanto esvazia uma garrafa com o que parece uma mistura de refrigerante com alguma bebida alcoólica, provavelmente uma pinga barata. Já são 11 horas. O cenário: o Largo da Ordem, no centro velho de Curitiba. Bem diferente dos cenários de cartão-postal – que passam uma idéia de cidade-modelo -, dezenas de vendedores (crianças em sua maioria) de balas e artesanato, poetas famintos que oferecem suas poesias em patéticas folhas fotocopiadas, derrotados que pedem um cigarro (“estou duro, se puder me arranja dois”), todos os tipos que se possa imaginar, lutam pela sobrevivência em meio às mesas ocupadas por boêmios não menos indiferentes que a igreja, que continua lá, a encarar o movimento das ruas quase escuras. Que histórias esses vendedores e poetas carregam consigo? Provavelmente histórias tristes. Uma fuga do interior e o desafio de sobreviver, sozinho, na cidade grande? Um bom emprego e casamento destruídos pelo amor maior à garrafa? Uma desilusão amorosa? Dou um cigarro. O isqueiro não é necessário: a alma destruída veio preparada. A sexta cerveja é servida. A conversa, que até pouco incluiu as obras de Dalton Trevisan, passa para as poesias de Paulo Leminski. Nas outras mesas, amantes se amam, solitários procuram compreensão num copo de whisky. Faz frio. Não é preciso olhar para o marcador do topo do Edifício Itália para confirmar. É um frio que parece penetrar nos ossos, mas que não basta para afugentar essa fauna rica em pessoas que ocupa as mesas ou se apóia nas fachadas dos antigos casarões. Pessoas que parecem deslocadas numa sociedade que prima pela uniformização, mas que aqui, em meio aos prédios que já foram símbolo de riqueza, encontraram um lugar onde podem expressar sua criatividade ou simplesmente serem livres. Na ladeira que leva às mesas, um velho, com todas as marcas de uma vida difícil estampadas no rosto, caminha gritando. Leminski vai ter que esperar. Começamos a observar o velho. Veste um blazer com botões dourados e uma calça branca que parece ser a coisa mais clara da rua. “Viva a Força Aérea Brasileira!”, ele grita entusiasticamente. Continua incitando a multidão, mas se cala quando vê que seu momento já passou. Todos voltam sua atenção para a conversa. Sétima, oitava, nona cerveja. O frio não dá trégua. Passamos para Bukowski. Como o velho safado encararia o Largo? Provavelmente ficaria encantado com o lugar. E pediria um trago. Observamos os policiais que encaram todos com mal disfarçado desprezo: seus ameaçadores revólveres e seus inconfundíveis uniformes cáquis. Não combinam com o lugar e sabem disso. Décima cerveja (“essa conta vai custar uma nota!”). A saideira. O dono do bar, o único que exerce poder nesse ambiente de anarquia, já dá sinais que pretende fechar: cadeiras em cima das mesas, a conta que chega sem ninguém ter pedido. Dou meu último gole e me despeço do Largo, seus tipos interessantes, as calçadas sujas e a igreja, que continua lá, encarando.

Chega! Toda essa baboseira que escrevi acima foi resultado de uma conversa que tive com meus amigos Fausto e Galeb. Discutimos como são banais e cheios de clichês a maioria dos textos de jornalismo literário. O cenário da conversa? Claro que foi o Largo da Ordem… As cervejas só foram seis e conversamos sobre como um texto desses descreveria o lugar (e qual seria a postura do autor). Certo, talvez o texto que rabisquei acima não passe perto de um exemplar de jornalismo literário, mas é só pra captar a idéia. A droga da “luz tímida” é um começo típico. Observação e mais observação, nada de conversa. A maioria dos textos parece encarar as pessoas como se elas estivessem expostas num zoológico. Descrição de roupas e de sinais no rosto, que, não levem a mal, até podem ser interessantes, acabam virando uma fórmula inescapável. Nem todos os jornalistas são Kapuściński para trabalhar tão bem esses aspectos.

Espontaneidade que nada. O que faz um texto de Talese ou Hersey ser tão interessante, e passando longe do senso comum, foi a dedicação e a interação com as pessoas. Observar tudo de uma mesa, ou esperar resolver o assunto num par de horas, só pode resultar numa besteira como a escrita em itálico. Os personagens, que podiam revelar coisas interessantes atráves de um pouco de conversa, acabam virando meros coadjuvantes. Quando estava na faculdade, sempre fiquei abismado com o medo – ou timidez, mas ainda assim imperdoável – que vários colegas sentiam ao abordar alguém e fazer perguntas. Era um medo que levava à paralisia. Voltando ao texto, a tal igreja nunca passou essa impressão no autor: é apenas um elemento colocado artificialmente para rechear o texto. Uma crítica à ordem burguesa e pronto! Temos mais um elemento. Pior mesmo, só se comportar como um antropólogo; com toda aquela merda de querer classificar os tipos urbanos. Todas as coisas escondem alguma coisa que vale a pena ser descrita, mas muitos textos são apenas uma conseqüência tola de algo que não tinha nada a ver com fazer uma matéria. Viagens de ônibus, avião, a espera numa fila. O escritor não procurou conhecer: apenas catou alguns aspectos que foram jogados no ar e tratou de hierarquizá-los numa fórmula já pronta.

Nas grandes obras do jornalismo literário, tão interessantes quanto o resultado, são os posfácios ou a explicação do autor sobre como foi produzir o texto (Deus abençoe a Cia. das Letras). Todos gastaram um bom tempo com conversa, conversa e mais conversa – os personagens e suas histórias sempre são o material mais rico. Além, é claro, de uma observação mais prolongada e a procura por outros pontos de vista. E cabe ao leitor tirar suas conclusões. Sempre gostei de economia. Uma observação mais pessoal, quando rara, enriquece o texto e serve para notarmos como estávamos imersos na história – que maravilha a frase do Hersey no Hiroshima, “no primeiro momento da era atômica livros imprensaram um ser humano numa fundição de estanho”, em meio a um texto cru. Se colocar como personagem sempre presente é interessante quando as situações exigem isso (como George Orwell no hospital para pobres de Paris) ou a situação vivida proporcione um bom exemplo daquilo que se quer falar (de novo Orwell, mas sobre colonialismo no texto O Abate de um Elefante). Observações pessoais e ser seu próprio personagem, quando um vício estilístico, acabam se tornando um aborrecimento.

Obs: Aposto que um texto maravilhoso sobre o Largo da Ordem sairia da Olympia de Joseph Roth. Seu Berlim reúne alguns dos melhores textos já produzidos sobre regiões decadentes e vida boêmia.

“Old age isn’t so bad when you consider the alternative.”

segunda-feira, agosto 13, 2007

Essa calculadora de vida informa que tenho 16.9 anos de “idade real” e expectativa de vida de 81 anos. Um pouco mais que os 76 anos que o Death Clock me indicou.

16.9? Sempre me falaram que me comporto como se tivesse 50 anos.

(via Pedrodoria.com.br)

A Índia aos 60

domingo, agosto 12, 2007

Gateway of India (Portal da Índia), em Mombai (antiga Bombaim), símbolo do domínio britânico.

O dia 15 de agosto marca os 60 anos do clímax da bem-sucedida campanha de não-violência de Ghandi: a independência da Índia.

As verdadeiras comemorações de independência estão reservadas, normalmente, para os primeiros anos, quando ainda existe euforia. Para os mais distantes existe a intenção de homenagear aqueles que tiveram papel relevante no processo e estão nos últimos anos de vida. Com 60 anos sobra a reflexão. 1947 marcou o fim de dois séculos de presença britânica no subcontinente. Presença, claro, nefasta na moderna visão democrática, mas que no final foi benéfica para o país – ou países, pois depois de independente, o antigo domínio britânico foi se fragmentando com os anos e deu origem ao Paquistão, Sri Lanka (antigo Ceilão) e Bangladesh (Paquistão Oriental). A fragmentação subseqüente mostrou que a idéia de um país de pobres almas que caiu na teia de uma nação imperialista é bastante exagerada. Antes dos britânicos, a idéia da Índia como unidade política simplesmente não existia. Era uma ordem mais ou menos parecida com a feudal: marajás e rajás aqui e ali, reinos acolá, etc. Um mosaico impressionante de pequenos países. Para dar alguma homogeneidade, os britânicos usaram violência, mas na maioria dos casos, tornaram os pequenos reinos e principados Estados tributários ou clientes da Grã-Bretanha. Foi assim que conseguiram manter – como Lênin admirava, mas enganado quanto à forma – o domínio sobre 400 milhões de pessoas (à época da independência) com não mais que alguns milhares de funcionários e soldados. E era uma administração tocada com eficiência.

Às vezes precisamos encarar o estranho para nos darmos conta do que somos. Isso é uma meia verdade no caso indiano. Todos sabem que a Índia é uma sociedade composta dos mais variados extratos, e é bastante rígida e estamental. Nascer na casta errada pode, mesmo com os esforços do governo atual em coibir o velho costume, condenar o sujeito a uma existência miserável. Na maior parte do período britânico esse era o parâmetro que conduzia as relações sociais. Idéias de aspiração nacional ou de “vamos fazer daqui um lugar melhor” só foram absorvidas pelos indianos a partir da década de 1920 – a Revolta dos Cipaios de 1857, considerada por alguns precursora do movimento de independência moderno, na verdade foi uma reação contra algumas imposições da Companhia Britânica das Índias Orientais. E foram idéias importadas; sobretudo pela elite que teve oportunidade de estudar na Europa – o homem do povo, Ghandi, por exemplo, era advogado. Nos atrai a linha de pensamento que relaciona todos os problemas a causas externas e que escapam do nosso controle. A gritaria antiimperialista foi – e continua a ser – uma forma de se isentar da responsabilidade. Claro que existem casos como o de Ruanda e do Congo Belga, onde os colonizadores usaram da engenharia social à limpeza étnica para adaptar ou dizimar as populações; métodos que deixaram cicatrizes profundas nesses países. Mas esse não foi o caso da Índia. Lá, os britânicos se aproveitaram, como já falei um pouco antes, de uma estrutura social e política fragmentada já existente, para lucrar. Não estavam muito interessados em “europeizar” a Índia e converter os súditos em soldados de Cristo. Até 1857, a Companhia Britânica das Índias Orientais tentou fazer isso, mas diante da resistência, ela perdeu o monopólio. Uma administração da própria coroa, mais tolerante, assumiu a Índia e cessou os esforços de europeização. Nunca houve algo parecido com “nos ancêtres les gaulois…” nos livros escolares indianos. A Índia, ao contrário da maioria das colônias, sempre foi encarada como um bom negócio. E de fato era. Ruim? De certa forma sim, mas foi melhor que outros destinos. Lucrar ainda é menos prejudicial que colonizar almas. Entre um corrupto e um fanático, fique com o primeiro.

E, sim, a Índia foi uma vaca leiteira para a Grã-Bretanha, mas até ganhou algo em troca. Um judiciário moderno e sistemas de transporte – que revolucionaram a integração e a idéia de nação – foram alguns dos legados. Pode parecer pouco, mas não é: o país absorveu muito do melhor que a Europa tinha a oferecer, inclusive o sistema democrático, totalmente desconhecido antes dos britânicos. O próprio sistema colonial britânico era liberal. Um político populista como Ghandi teria facilmente desaparecido numa oubliette se atuasse numa Argélia francesa – ou numa Rússia soviética.
Excessos foram cometidos aqui e ali, especialmente no final, mas a garantia britânica de independência, datada de 1942, fez explodir os ânimos das facções rivais que pretendiam tomar o poder depois dos antigos senhores terem partido. Um fenômeno típico em todas as transições – quem acompanhou o fim do Apartheid lembra. A independência chegou nas primeiras horas do dia 15 de agosto de 1947. Os antigos colonizados estavam agora livres para fazer suas próprias besteiras. E as fizeram. Torno a repetir: como unidade política, a Índia não existia antes dos britânicos. Como então governar o país depois da saída deles? Resposta: da mesma forma. Ou melhor, quase da mesma forma: saindo os funcionários britânicos, uma classe de políticos profissionais, quase toda proveniente das castas superiores, e que não tinha a mínima idéia de como governar um país com eficiência, assumiu o comando da casa. Ódios que ficaram latentes durante o domínio britânico de repente renasceram: o Paquistão se separou e milhões de pessoas tiveram que escolher um lado, se tornando refugiadas. Um problema ainda bem vivo, agora agravado porque os dois países possuem arsenais atômicos.

Mesmo a fragmentação esconde uma união artificial: o velho sistema de Estados clientes, com suas dezenas de membros, foi dissolvido. Por vezes mantida pela força, uma nova ordem destronou os antigos marajás e começou a administrar tudo à distância. Nova ordem que continuou alienando a grande massa de indianos – o papel de meros coadjuvantes que desempenharam no processo de independência ficou bem óbvio. Nova Déli era tão distante para alguns do que Londres fora um dia. A pobreza, ainda o maior poblema do país, começou a ser combatida com a engenharia social. Uma das tentativas foi submeter mulheres à esterilização forçada para que parassem de gerar mais filhos e perpetuar a miséria.

Mesmo isso foi feito com má vontade. Acabar com a pobreza não era a prioridade dos políticos que lutaram pela independência. Lançar bravatas era a atividade favorita dos novos senhores. O “terceiro-mundismo”, que encontrou sua encarnação perfeita em Jawaharlal Nehru, presidente da Índia, chegou ao clímax em 1955, na conferência de Bandung (Indonésia), o G-20 daqueles dias. Incapazes de acabar com os problemas dos seus países, os líderes do Terceiro Mundo se lançaram a reclamar em conferências internacionais. O colonialismo tinha acabado: é tudo culpa do neocolonialismo agora! A nação que encabeçava o movimento antiimperialista começou, sob o pretexto de “libertar”, a anexar seus pequenos vizinhos. Assim foi a história do antigo domínio português de Goa. A escalada militarista chegou ao ponto do país travar três guerras com o Paquistão e uma com a China.

Enfim, a maior parte da história indiana está repleta de episódios tristes.
A boa notícia é que aos poucos muitos dos problemas do país estão sendo superados depois de 60 anos. O sistema democrático um tanto desvirtuado, legado pelos britânicos, é uma realidade, ainda que imperfeita. A pobreza ainda grassa no país, mas já existem 200 milhões de indianos pertencentes à classe média. A ojeriza terceiro-mundista à várias coisas oferecidas pelo ocidente arrefeceu: o país hoje recebe bilhões em investimentos externos, é um dos mais novos pólos de produção de software do mundo e já é a 12° economia do mundo. Só mais capitalismo, não o louvor à vida simples e recuperação da cultura ancestral, vai tirar o grosso das pessoas da miséria. Quem liga para castas se você tem os bolsos cheios de dinheiro?

Mais de São Paulo, 4 de agosto

sexta-feira, agosto 10, 2007

Algumas das fotos que bati na manifestação da “Grande Vaia” em São Paulo. Outras podem ser vistas no link ou na barra direita do blog.

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All photos by Jean Struck

Doisneau

quinta-feira, agosto 9, 2007

Pausa nas reclamações: algumas fotos do falecido fotógrafo francês Robert Doisneau. Adoro seu trabalho. Espero um dia emoldurar e espalhar pelas paredes de casa.

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Doisneau se definia mais como um pêcheur d’images (pescador de imagens) do que um chasseur d’images (caçador de imagens). Sua mesa de trabalho eram as ruas, as cenas parisienses, especialmente aquelas repletas de ironia, afeto e nostalgia.

Sua foto mais famosa:

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A história do Le baiser de l’hôtel de ville, de 1950, como a foto é conhecida – um cartão de dia dos namorados e pôster de sucesso – é bem controversa. Doisneau sempre garantiu que a foto foi tirada por acaso. Durante décadas apareceram na televisão francesa vários casais de idosos que garantiam serem eles os amantes anônimos da foto, e, claro, reclamando sua parte da grana. Diante de uma série de farsantes – alguns chegaram a levá-lo aos tribunais -, Doisneau capitulou em 1992. Ele admitiu que a foto fora montada e doou a original para Françoise Bornet, que havia posado com seu então namorado, Jacques Carteaud – é, eles não ficaram juntos.

Sobre o PT e Repórteres sem Fronteiras

quinta-feira, agosto 9, 2007

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– ” Maldita visão liberal-burguesa de democracia.”

Seria diversão garantida se não fosse preocupante o texto de um comissário de imprensa do PC do B sobre a ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF). Para quem não sabe, semana passada a ONG enviou uma carta endereçada ao presidente do PT, Ricardo Berzoini, na qual critica a posição do partido com relação às ameaças que o governo está promovendo contra a liberdade de imprensa e a eterna reação de não aceitar críticas. E não é que anteontem o site do PT resolve publicar um velho texto de um camarada que critica a ONG? Com data de 2006, o texto, uma coleção impagável de mentiras e distorções – um exemplo banal, mas puro de texto comunista -, foi escrito quando a organização divulgou o ranking de liberdade de imprensa entre as nações. O Brasil apareceu em 75° (numa relação de 168 países). Em grande parte porque “escrever sobre temas sensíveis, como corrupção, narcotráfico e desflorestamento, pode ser muito perigoso, fora das grandes cidades do Brasil” – afirmação óbvia, mas que é ridicularizada no texto. O autor, que atende pelo nome Altamiro Borges, não gostou e mandou bala. Já começou pelo título Bush e os “repórteres sem fronteira” (aspas e letras minúsculas do autor), para em seguida delirar numa idéia absurda que relaciona a posição da Coréia do Norte, ditadura mais fechada do mundo, em última no ranking, com supostas intenções de parlamentares americanos de provocar e endurecer o jogo contra a nação comunista. Ora, é amplamente conhecido que o governo Bush sempre foi soft com o problema coreano, e que, por fim, acabou subornando Pyongyang para que parasse com sua aventura nuclear. Se isso é provocação, que precisa ser amparada por um relatório de uma ONG, que muitas vezes criticou e continua a criticar os EUA, eu me mudo para Cuba. Por falar em Cuba, o autor procura atacar a organização defendendo países que são sinônimo de falta de qualquer tipo de liberdade, seja de imprensa ou mesmo de acessar uma sala de bate-papo online. Entre eles, Cuba, Irã e China. A implicância do autor com a organização, mas ao mesmo tempo com os EUA, chega a desafiar a lógica. No tal relatório, os EUA estão colocados em 57° lugar, posição até severa, visto que o país é um modelo de liberdade de imprensa, mas que provavelmente se destina como recado para que o governo local desista de tentar passar leis de vigilância e garanta mais liberdade aos repórteres nos teatros de guerra do país. Nesse 57° lugar, onde comunista e organização de liberdade de imprensa poderiam compartilhar algo em comum, a condenação dos EUA, se o relatório não mexesse com os “companheiros”, surge mais uma distorção no texto. O autor, acreditem, um jornalista, afirma que colocar os EUA em 57° é uma posição elevada demais em comparação ao Brasil, 75° no ranking. Fica ainda melhor mais à frente. A teoria da conspiração do sr. Altamiro não tem limites – deve ter feito pós na escola de propaganda do Komintern -, para ele, a tal ONG nada mais é que uma fachada para a CIA – sempre ela! -, de quem recebe volumosos financiamentos. Claro, na lógica do 57° é alto demais, a afirmação pode até fazer sentido, ainda mais amparada por afirmações de Gianni Carta, da sempre chapa-branca revista Carta Capital, que, aliás, através da agência Carta Maior, publica textos do sr. Altamiro. A maior parte da grana da RSF vem da União Européia. Se isso é ruim, do ponto de vista da isenção, é outra história. O texto, sempre amparado por Carta, também reclama do que a RSF não fez. Como no caso do araponga italiano trucidado por soldados americanos no Iraque, depois de negociar a libertação de uma conterrânea repórter. Para o autor não houve gritaria suficiente da organização no caso. Ignorando todos os poréns do affaire, além das dezenas de textos publicados no próprio site da RSF. Bastava usar o Google. A ferramenta de busca também teria sido útil para entender a posição – mais uma pilha de textos disponíveis – da RSF sobre os presos de Guantánamo: ela protesta contra o encarceramento de jornalistas acusados de terrorismo. Para Altamiro, ela não se manifestou. Chega a ser cansativo apontar as distorções – e não opiniões – do texto. Mas que se dane, lá vai mais uma: quando a OTAN bombardeou o prédio da RTS sérvia, matando uma série de repórteres que trabalhavam lá, a organização, na visão do camarada Altamiro, não contabilizou os mortos no ataque na sua relação anual de jornalistas assassinados. Isso foi em 1999. Os tais relatórios só começaram a sair em 2002, ou seja, três anos depois da “omissão”. Além disso, a RSF informa, num texto mais recente, que em 1999 morreram 86 jornalistas. O número bate com o divulgado pelo International Press Institute (IPI), que naquele ano contabilizou 86 mortos, entre eles os jornalistas da RTS.

Bom, tudo isso foi um exercício inútil: de textos comunistas repletos de absurdos a internet está cheia. Posso até estar enganado sobre a real natureza da RSF – se ela é fachada para a CIA, George Soros, capital judeu -, não importa. Quando criticado, especialmente pela imprensa, o PT mostra sua real natureza: a de um partido que alimenta uma eterna paixão pelo autoritarismo. O autor ser do PC do B é um detalhe, poderia ser escrito por qualquer companheiro. Tanto que está aí para quem quiser ler, no site do PT.

O melhor do texto eu guardei para o final. Quando define o que move a organização, o autor diz, com desdém, que a RSF é “adepta da visão liberal-burguesa de democracia“. Lindo, não? Os companheiros odeiam a tal “visão liberal-burguesa de democracia” que garante barbaridades do gênero serem publicadas e que permitiu o PT assumir o poder. Não parece aquele camarada de bigodinho?