“Smoking is one of the leading causes of statistics.”

leportdelangoisse.jpg
Anybody got a match?

“Os estúdios Walt Disney se comprometeram a não incluir mais atores fumando em seus filmes e divulgar mensagens contra o cigarro nos cinemas e em seus DVDs, segundo carta enviada nesta-quarta a um parlamentar americano.”


Ridícula, mas não supreendente a decisão dos estúdios Disney. Há tempos o cinema americano está travando uma guerra contra o cigarro. Relegado como hábito de bandidos, especialmente os vilões “eurotrash“, e como sinal de fraqueza de personagens decadentes, o cigarro está desaparecendo rapidamente das telas. Filmes Disney, que não tem nenhum compromisso com a realidade (bichos que atravessam 20 Estados para achar os donos, gêmeas que tentam unir os pais, mães que trocam de lugar com as filhas), não são exatamente problemáticos. Ninguém chegado a um bom tabaco ou que não acredite que as telas devam ser “desinfetadas” assiste. O problema é quando Hollywood começa a falsificar a história ou ignora que uma boa parcela da população ainda fuma. Um filme como Pearl Harbor – não discutindo a (falta de) qualidade do longa -, que se passa em plena Segunda Guerra, não inclui um único fumante em suas cenas. Isso é especialmente ridículo, considerando que fumar naquela época era um hábito bastante disseminado – o não-fumante era o excêntrico. Também dispostos a erradicar o consumo de cigarros, grupos que fazem da censura uma razão de viver, e que definem a classificação etária de um filme, punem mais a quantidade de fumaça na tela do que cenas de violência. E isso é só um reflexo de uma guerra absurda que se trava contra as liberdades individuais. A teoria do fumo passivo há muito substituiu a máxima do corpo ser um templo. Já não querem nos convencer, querem nos enxotar. Tratando os fumantes como leprosos que precisam ser erradicados da paisagem, o front antitabaco – o mais pernicioso dos movimentos que pretendem legislar sobre a vida dos outros – não difere muito dos médicos nazistas, que assumiam uma postura de “médicos da sociedade” (ou raça) – postura que foi mostrada de maneira brilhante no documentário Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen. Sexo com judeus, aborto, educação liberal, sedentarismo, não eram tolerados; uma série de decisões individuais, mas que na visão de médicos de um sistema totalitário, enfraqueciam o grupo e prejudicavam a sociedade. Erradicar ou desistimular era a política. O regime nazista foi pioneiro em campanhas de combate ao hábito de fumar – embora grupos religiosos já proibissem seu rebanho de consumir desde cigarros até café. Associando o cigarro ao vício, à degeneração e, não muito diferente da gritaria anticapitalista contra as indústrias que lucram com a morte, ao capital judeu. Fumar em prédios públicos, transportes e universidades foi proibido. A propaganda de cigarro, também identificada como supérflua numa sociedade que se preparava para guerra, foi banida. Também foi cunhado o termo fumante passivo (Passivrauchen) por um dos muitos institutos fajutos dos nazistas, para alardear que os fumantes estavam sabotando não só seus pulmões, mas prejudicando a todos. É preciso salientar que a principal preocupação dos nazistas não era com o fôlego da população, mas sim em combater um hábito identificado com o individualismo – supremo horror de um governo que buscava a uniformização e buscava adentrar em cada aspecto da vida cotidiana. É isso que os atuais grupos que combatem o cigarro – ONGs ou pessoas que acabam convencendo o governo a adotar uma postura paternalista – não podem tolerar: indivíduos que, contra todas as evidências sobre o mal que o cigarro faz com seus pulmões, não aceitam que suas vidas sejam reguladas. Tratando o tema como uma guerra – que está próxima da vitória -, o front antitabaco se comporta como um grupo mais “esclarecido” (“como eles podem colocar uma coisa suja na boca?”) que busca a harmonização (“temos que abandonar os vícios”) à força, através da desmoralização e proibição. Nos apresentando uma matématica cada vez mais complexa para mostrar que um fumante é um potencial homem-bomba num espaço fechado. Já chegaram ao cúmulo de sugerir ambientes com portas lacradas e com pressão negativa, para que a fumaça não escape quando se abrir a porta. A ACTBr (Aliança de Controle ao Tabagismo) possui uma lista de discussão chamada “Rede Tabaco Zero”, e explica que o nome remete ao programa Fome Zero, “traçando um paralelo entre a importância do controle do tabaco e a minoração da pobreza e combate a (sic) fome“. Um samba do crioulo doido.

Não interessa a eficácia dessas patrulhas – na Alemanha nazista, por exemplo, mesmo com as restrições, o consumo de cigarros explodiu -, mas sim seus malefícios no âmbito da liberdade individual. Aos poucos, espaços reservados para fumantes – que já eram uma forma de discriminação – vão desaparecendo. Em muitos shoppings a área de escape é a própria rua, não há espaço para degenerados no mundo das pessoas mais esclarecidas. Em algumas cidades da Califórnia – a terra santa do movimento antitabaco -, nem mesmo a rua é um refúgio, o fumante, se quiser dar umas baforadas, deve ficar restrito à sua própria casa – sua casa, mesmo, a sacada deixa escapar os gases tóxicos. Na mesma linha de banir os fumantes do convívio social, entrevistadores de emprego podem barrar pessoas fumantes: a proibição da discriminação por raça ou religião não cobre escolhas individuais. Uma verdadeira neurose coletiva.
Não há nada de errado em desestimular o hábito de fumar, mas na forma de campanhas meramente educativas, e não como uma guerra que está apenas esperando ser coroada com a manchete “Vitória” nas páginas dos jornais. E essa vitória está cada vez próxima. Qual será o próximo alvo das campanhas politicamente corretas?

Als die Nazis die Kommunisten holten,
habe ich geschwiegen;
ich war ja kein Kommunist.

Als sie die Sozialdemokraten einsperrten,
habe ich geschwiegen;
ich war ja kein Sozialdemokrat.

Als sie die Gewerkschafter holten,
habe ich nicht protestiert;
ich war ja kein Gewerkschafter.

Als sie mich holten,
gab es keinen mehr, der protestieren konnte.

Tradução:

When the Nazis came for the communists,
I remained silent;
I was not a communist.

When they locked up the social democrats,
I remained silent;
I was not a social democrat.

When they came for the trade unionists,
I did not speak out;
I was not a trade unionist.

When they came for me,
there was no one left to speak out.

Martin Niemöller

Anúncios

Tags: , , , , ,

4 Respostas to ““Smoking is one of the leading causes of statistics.””

  1. evelynpetersen Says:

    Até me fez lembrar a divertida musiquinha do cowboy Tex Williams

    Smoke, smoke, smoke that cigarette
    Puff, puff, puff until you smoke yourself to death

    Esta semana um ministro indiano propôs uma medida para classificar toda a programação que inclua imagens de ‘fumantes’ sob a categoria ‘A’ (a mesma usada para imagens que exibem consumo de drogas ilegais).

    Olha aqui http://www.tobacco.org/

    Muito bom seus textos. Já linkei vc lá. 🙂

    bjs

  2. J-P. Albert Struck Says:

    Thank´s for drop by. Já fazia algum tempo que eu tava querendo me obrigar a fazer um blog. Há meses não escrevia nada. Fique à vontade para xingar e apontar erros de português. Bj.

  3. Norman Chap Says:

    Título maravilhoso para textos idem. Sem querer soar presunçoso, fico feliz em vê-lo à altura das minhas elevadas expectativas. Você as criou a as atendeu. Deslindaste muito bem a canalhice que se esconde sob a fachada do politicamente correto e deixou-me com vontade de conhecer Kapuscinski. Keep going!

    p.s.: a propósito, seu irmão é um excelente fotógrafo! andei passeando também pelas suas (dele) paisagens.
    p.s.2: grato link, retornarei.

  4. Fátima Goulart Says:

    Embora não tenha feito esta solicitação antes, e estando inspirada para escrever e desandar a surrar meu teclado, tomei emprestado uma pequena parte do seu texto mas fiz o devido crédito. Veja em fatimavesteprada.blogspot.com.
    Adorei a sua postagem sobre a sociedade anti tabagista.
    Abraços.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: