Bande de canaques

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Injustificável a decisão do canal Discovery Channel de banir os palavrões do documentário The War Tapes. O Documentário, uma compilação de imagens captadas na guerra do Iraque, realizadas por dez soldados da Guarda Nacional de New Hampshire que ganharam câmeras da diretora Deborah Scranton, é uma impressionante dose cavalar de realidade da guerra. É a guerra vista por aqueles que lutam. Realista pelo menos em imagens. Os sucessivos bips no áudio, para disfarçar os incontáveis “fucks” proferidos pelos soldados – e quem não diria fuck, ou merda, ao ver seu superior atingido por uma bala no tendão de aquiles? -, colocados na edição, soam absurdamente ridículos. O que passa pela cabeça de um programador de televisão que coloca no ar um documentário desses? Veicular imagens de atrocidades é permitido, como uma criança ensangüentada impedida de ir ao hospital por soldados, sob a alegação de evitar uma invasão de perímetro, mas a indignação mais apropriada numa situação dessas,”what a fuck?”, é cortada, provavelmente para não ferir os ouvidos mais sensíveis. A premissa de um documentário realista, mostrando como um soldado se comporta não só em combate, mas também nos momentos angustiantes que precedem um, cai em descrédito. Uma visão pasteurizada da realidade toma conta da tela, e o debate sobre as razões de lutar – e como lutar -, infelizmente, passa longe do filme.

Pelo menos os bips nos lembram que algo está sendo censurado – sim, suprimir algo tão natural como os palavrões numa guerra é censura -; não são a patética substituição por palavras mais audíveis, como patife e maldito, tão comuns nas versões dubladas de filmes estrangeiros. Um tiro pela culatra, os bips acabam funcionando como versos de Luís de Camões numa página de política de um jornal. A decisão é tão absurda quanto as ações de certos grupo pró-família americanos que lançam versões mutiladas de filmes por considerarem certas cenas inapropriadas. Os E-rated movies, como são chamados, se tornaram bastante populares em – não é surpresa – Utah, EUA, depois que um cinema local passou, em 1998, uma versão de Titanic que suprimia quase três minutos de cenas mais “fortes” do filme. Em breve uma locadora da mesma região estava oferecendo versões E-rated de filmes em VHS. Foram suprimidos pela faca um beijo de Matrix, a bissexualidade de Frida Kahlo e cenas de outros 5 mil filmes. Não só o sexo e os palavrões são considerados ofensivos: um editor (ou censor) de uma versão E-rated de A Lista de Schindler cortou cenas de um campo de concentração em que apareciam judeus correndo nus na esperança de serem considerados aptos ao trabalho pesado pelos médicos nazistas. A justificativa: “Every teenager in America should see that film. But I don’t think my daughters should see naked old men, running around in circles“. Holocausto sim, nudez não.

Fico com o público dos cinemas que gritava eufórico quando uma bolinha preta errava o alvo e mostrava rapidamente partes íntimas – como aconteceu quando A Clockwork Orange passou nos cinemas brasileiros -, denunciando o ridículo da situação.

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