As lagartixas de Kapuściński

Relatos de viagens a terras exóticas, de experiências em guerras e aventuras vividas, mesmo que escritos por jornalistas, costumam ser obras oportunistas ou uma prova do narcisismo do autor. No máximo conseguem arrancar um suspiro de “queria ter estado no lugar de fulano”.

O melhor livro que tive a oportunidade de ler este ano foi Ébano – Minha Vida na África -, de Ryszard Kapuściński, que foi recentemente reimpresso pela Cia. das Letras. É difícil resumir um trabalho tão rico. São memórias que abraçam todos os temas – viagem, guerra, aventura – contadas de forma magistral. “Queria estar em seu lugar e depois poder escrever assim.”

Kapuściński, jornalista de uma agência estatal polonesa durante o regime comunista, foi autor de uma obra riquíssima. Escreveu livros sobre a União Soviética (Imperium, infelizmente esgotado no Brasil), o conflito travado entre El Salvador e Honduras (A Guerra do Futebol, inédito no Brasil), a queda do dirigente iraniano Reza Pahlevi (Xá dos Xás, também inédito). Mas é na África que seu talento como observador atento e humilde se manifestou na sua melhor forma.

Os relatos de Kapuściński sobre as peculiaridades, as tragédias e a riqueza do continente são inesquecíveis. Mas é bom lembrar que se trata de um livro de memórias, em que o jornalista é o personagem. E que personagem esse Kapuściński! Nunca vou esquecer a impressionante descrição de seu ataque de malária, a luta que travou contra uma cobra, a patética e inútil tentativa de fugir de barco de uma ilha, sua frustração ao constatar que seu apartamento tinha sido novamente arrombado. Mas a força do seu texto está, sobretudo, na descrição da África e de seus habitantes. Kapuściński não procura por aquele “algo” que inspira tantos viajantes. Quer conhecer, entender, relatar o que viu. É um jornalista. Não perde tempo se lamentando que sentia saudades da mãe ou dos amigos – um mal de todos esses relatos, mesmo os jornalísticos -, mas se concentra em descrever coisas como os hábitos de uma simples lagartixa africana – e como lagartixas podem ser interessantes na mão de um escritor tão talentoso.

Usando metáforas, descrição da natureza, do clima (o calor, o calor, o calor) e, sobretudo, não só travando contato com os locais mas compartilhando experiências, Kapuściński passa ao leitor o que é a experiência africana. George Orwell, um escritor proveniente de uma família de classe média, retratou a pobreza parisiense de forma impressionante ao viver como um indigente nas ruas de Paris da decáda de 1920. Embora tenha ido a África como jornalista, Kapuściński evitou o “circuito branco” africano – é bom lembrar que se trata de um livro que cobre várias decádas, da descolonização até o recente drama da maioria dos países africanos.

Nenhum estudo da ONU sobre a seca poderia ser tão dramático quanto o desespero que o jornalista relata, quando se vê isolado, sem água, em pleno deserto do Saara. Mas o próprio Kapuściński admite que seu livro não é uma descrição completa da África, mas, sim, sobre alguns aspectos do continente. Ele é um branco, um ocidental, e, embora seja a época da descolonização e os brancos não sejam mais os senhores, o choque cultural é evidente. Isso fica evidente no texto “Eu, o branco”. Mas, não custa repetir, Kapuściński quer entender as diferenças entre a mentalidade européia (ou branca) e a africana. Quando nota, um pouco impaciente, que seu ônibus está demorando para partir de um pequeno vilarejo, pergunta a que horas o motorista pretende começar a viagem. A pergunta gera espanto: “o ônibus vai sair quando estiver lotado”. O tempo, essa invenção ocidental, não dita as regras no continente. O que sucita um relato interessantíssimo – e, por que não?, belíssimo – sobre a importância (ou a falta de) do tempo para os africanos. É uma injustiça que o escritor, tantas vezes indicado ao Prêmio Nobel, nunca tenha levado a honraria.

Kapuściński é um apaixonado pela África, mas um amante honesto. As guerras, os ódios étnicos, a corrupção, a fome provocada artificialmente, tudo isso está no livro. Há muito tempo os brancos deixaram o continente, e, embora sua presença ainda exista e possa ser considerada nefasta, são os negros africanos os maiores responsáveis pela mazelas. “No século XX, assim como os brancos mataram mais brancos que negros, os negros mataram mais negros que os brancos.” Sua descrição da história da miserável Libéria, o país construído por escravos americanos libertos, e que, muito antes da África do Sul, instituiu um sistema de Apartheid, são um balde de água fria para àqueles que acreditam na bondade nata do ser humano, ou que a cor da pele define o caráter de um homem.

Mas seria injusto terminar este texto com a descrição dos horrores que tornam a maior parte da história do continente tão triste. As imagens que se fixaram na minha mente quando li o livro, não incluem apenas a procura diária por comida, os crimes dos warlords, os exércitos de crianças portando armas automáticas, mas também a ligação emocionante que os africanos sentem com seus antepassados, a importância comunitária de uma mangueira num vilarejo de uma região desértica, e – essa é alma do livro – as pessoas que o jornalista encontrou nas suas viagens pelo continente.

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Uma resposta to “As lagartixas de Kapuściński”

  1. Daniel Piza Says:

    wow! great text! this kapuściński fellow must be amazing!

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