Archive for julho \30\UTC 2007

Parisiennes

segunda-feira, julho 30, 2007

Aproveitando o gancho do tabaco, um link para uma propaganda televisiva de uma marca de cigarros. Nenhuma relação com o produto, personagens estranhos, efeitos especiais… é David Lynch!

“Smoking is one of the leading causes of statistics.”

domingo, julho 29, 2007

leportdelangoisse.jpg
Anybody got a match?

“Os estúdios Walt Disney se comprometeram a não incluir mais atores fumando em seus filmes e divulgar mensagens contra o cigarro nos cinemas e em seus DVDs, segundo carta enviada nesta-quarta a um parlamentar americano.”


Ridícula, mas não supreendente a decisão dos estúdios Disney. Há tempos o cinema americano está travando uma guerra contra o cigarro. Relegado como hábito de bandidos, especialmente os vilões “eurotrash“, e como sinal de fraqueza de personagens decadentes, o cigarro está desaparecendo rapidamente das telas. Filmes Disney, que não tem nenhum compromisso com a realidade (bichos que atravessam 20 Estados para achar os donos, gêmeas que tentam unir os pais, mães que trocam de lugar com as filhas), não são exatamente problemáticos. Ninguém chegado a um bom tabaco ou que não acredite que as telas devam ser “desinfetadas” assiste. O problema é quando Hollywood começa a falsificar a história ou ignora que uma boa parcela da população ainda fuma. Um filme como Pearl Harbor – não discutindo a (falta de) qualidade do longa -, que se passa em plena Segunda Guerra, não inclui um único fumante em suas cenas. Isso é especialmente ridículo, considerando que fumar naquela época era um hábito bastante disseminado – o não-fumante era o excêntrico. Também dispostos a erradicar o consumo de cigarros, grupos que fazem da censura uma razão de viver, e que definem a classificação etária de um filme, punem mais a quantidade de fumaça na tela do que cenas de violência. E isso é só um reflexo de uma guerra absurda que se trava contra as liberdades individuais. A teoria do fumo passivo há muito substituiu a máxima do corpo ser um templo. Já não querem nos convencer, querem nos enxotar. Tratando os fumantes como leprosos que precisam ser erradicados da paisagem, o front antitabaco – o mais pernicioso dos movimentos que pretendem legislar sobre a vida dos outros – não difere muito dos médicos nazistas, que assumiam uma postura de “médicos da sociedade” (ou raça) – postura que foi mostrada de maneira brilhante no documentário Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen. Sexo com judeus, aborto, educação liberal, sedentarismo, não eram tolerados; uma série de decisões individuais, mas que na visão de médicos de um sistema totalitário, enfraqueciam o grupo e prejudicavam a sociedade. Erradicar ou desistimular era a política. O regime nazista foi pioneiro em campanhas de combate ao hábito de fumar – embora grupos religiosos já proibissem seu rebanho de consumir desde cigarros até café. Associando o cigarro ao vício, à degeneração e, não muito diferente da gritaria anticapitalista contra as indústrias que lucram com a morte, ao capital judeu. Fumar em prédios públicos, transportes e universidades foi proibido. A propaganda de cigarro, também identificada como supérflua numa sociedade que se preparava para guerra, foi banida. Também foi cunhado o termo fumante passivo (Passivrauchen) por um dos muitos institutos fajutos dos nazistas, para alardear que os fumantes estavam sabotando não só seus pulmões, mas prejudicando a todos. É preciso salientar que a principal preocupação dos nazistas não era com o fôlego da população, mas sim em combater um hábito identificado com o individualismo – supremo horror de um governo que buscava a uniformização e buscava adentrar em cada aspecto da vida cotidiana. É isso que os atuais grupos que combatem o cigarro – ONGs ou pessoas que acabam convencendo o governo a adotar uma postura paternalista – não podem tolerar: indivíduos que, contra todas as evidências sobre o mal que o cigarro faz com seus pulmões, não aceitam que suas vidas sejam reguladas. Tratando o tema como uma guerra – que está próxima da vitória -, o front antitabaco se comporta como um grupo mais “esclarecido” (“como eles podem colocar uma coisa suja na boca?”) que busca a harmonização (“temos que abandonar os vícios”) à força, através da desmoralização e proibição. Nos apresentando uma matématica cada vez mais complexa para mostrar que um fumante é um potencial homem-bomba num espaço fechado. Já chegaram ao cúmulo de sugerir ambientes com portas lacradas e com pressão negativa, para que a fumaça não escape quando se abrir a porta. A ACTBr (Aliança de Controle ao Tabagismo) possui uma lista de discussão chamada “Rede Tabaco Zero”, e explica que o nome remete ao programa Fome Zero, “traçando um paralelo entre a importância do controle do tabaco e a minoração da pobreza e combate a (sic) fome“. Um samba do crioulo doido.

Não interessa a eficácia dessas patrulhas – na Alemanha nazista, por exemplo, mesmo com as restrições, o consumo de cigarros explodiu -, mas sim seus malefícios no âmbito da liberdade individual. Aos poucos, espaços reservados para fumantes – que já eram uma forma de discriminação – vão desaparecendo. Em muitos shoppings a área de escape é a própria rua, não há espaço para degenerados no mundo das pessoas mais esclarecidas. Em algumas cidades da Califórnia – a terra santa do movimento antitabaco -, nem mesmo a rua é um refúgio, o fumante, se quiser dar umas baforadas, deve ficar restrito à sua própria casa – sua casa, mesmo, a sacada deixa escapar os gases tóxicos. Na mesma linha de banir os fumantes do convívio social, entrevistadores de emprego podem barrar pessoas fumantes: a proibição da discriminação por raça ou religião não cobre escolhas individuais. Uma verdadeira neurose coletiva.
Não há nada de errado em desestimular o hábito de fumar, mas na forma de campanhas meramente educativas, e não como uma guerra que está apenas esperando ser coroada com a manchete “Vitória” nas páginas dos jornais. E essa vitória está cada vez próxima. Qual será o próximo alvo das campanhas politicamente corretas?

Als die Nazis die Kommunisten holten,
habe ich geschwiegen;
ich war ja kein Kommunist.

Als sie die Sozialdemokraten einsperrten,
habe ich geschwiegen;
ich war ja kein Sozialdemokrat.

Als sie die Gewerkschafter holten,
habe ich nicht protestiert;
ich war ja kein Gewerkschafter.

Als sie mich holten,
gab es keinen mehr, der protestieren konnte.

Tradução:

When the Nazis came for the communists,
I remained silent;
I was not a communist.

When they locked up the social democrats,
I remained silent;
I was not a social democrat.

When they came for the trade unionists,
I did not speak out;
I was not a trade unionist.

When they came for me,
there was no one left to speak out.

Martin Niemöller

Bande de canaques

quinta-feira, julho 26, 2007

fuck_iraq1.jpg

Injustificável a decisão do canal Discovery Channel de banir os palavrões do documentário The War Tapes. O Documentário, uma compilação de imagens captadas na guerra do Iraque, realizadas por dez soldados da Guarda Nacional de New Hampshire que ganharam câmeras da diretora Deborah Scranton, é uma impressionante dose cavalar de realidade da guerra. É a guerra vista por aqueles que lutam. Realista pelo menos em imagens. Os sucessivos bips no áudio, para disfarçar os incontáveis “fucks” proferidos pelos soldados – e quem não diria fuck, ou merda, ao ver seu superior atingido por uma bala no tendão de aquiles? -, colocados na edição, soam absurdamente ridículos. O que passa pela cabeça de um programador de televisão que coloca no ar um documentário desses? Veicular imagens de atrocidades é permitido, como uma criança ensangüentada impedida de ir ao hospital por soldados, sob a alegação de evitar uma invasão de perímetro, mas a indignação mais apropriada numa situação dessas,”what a fuck?”, é cortada, provavelmente para não ferir os ouvidos mais sensíveis. A premissa de um documentário realista, mostrando como um soldado se comporta não só em combate, mas também nos momentos angustiantes que precedem um, cai em descrédito. Uma visão pasteurizada da realidade toma conta da tela, e o debate sobre as razões de lutar – e como lutar -, infelizmente, passa longe do filme.

Pelo menos os bips nos lembram que algo está sendo censurado – sim, suprimir algo tão natural como os palavrões numa guerra é censura -; não são a patética substituição por palavras mais audíveis, como patife e maldito, tão comuns nas versões dubladas de filmes estrangeiros. Um tiro pela culatra, os bips acabam funcionando como versos de Luís de Camões numa página de política de um jornal. A decisão é tão absurda quanto as ações de certos grupo pró-família americanos que lançam versões mutiladas de filmes por considerarem certas cenas inapropriadas. Os E-rated movies, como são chamados, se tornaram bastante populares em – não é surpresa – Utah, EUA, depois que um cinema local passou, em 1998, uma versão de Titanic que suprimia quase três minutos de cenas mais “fortes” do filme. Em breve uma locadora da mesma região estava oferecendo versões E-rated de filmes em VHS. Foram suprimidos pela faca um beijo de Matrix, a bissexualidade de Frida Kahlo e cenas de outros 5 mil filmes. Não só o sexo e os palavrões são considerados ofensivos: um editor (ou censor) de uma versão E-rated de A Lista de Schindler cortou cenas de um campo de concentração em que apareciam judeus correndo nus na esperança de serem considerados aptos ao trabalho pesado pelos médicos nazistas. A justificativa: “Every teenager in America should see that film. But I don’t think my daughters should see naked old men, running around in circles“. Holocausto sim, nudez não.

Fico com o público dos cinemas que gritava eufórico quando uma bolinha preta errava o alvo e mostrava rapidamente partes íntimas – como aconteceu quando A Clockwork Orange passou nos cinemas brasileiros -, denunciando o ridículo da situação.

As lagartixas de Kapuściński

quarta-feira, julho 25, 2007

Relatos de viagens a terras exóticas, de experiências em guerras e aventuras vividas, mesmo que escritos por jornalistas, costumam ser obras oportunistas ou uma prova do narcisismo do autor. No máximo conseguem arrancar um suspiro de “queria ter estado no lugar de fulano”.

O melhor livro que tive a oportunidade de ler este ano foi Ébano – Minha Vida na África -, de Ryszard Kapuściński, que foi recentemente reimpresso pela Cia. das Letras. É difícil resumir um trabalho tão rico. São memórias que abraçam todos os temas – viagem, guerra, aventura – contadas de forma magistral. “Queria estar em seu lugar e depois poder escrever assim.”

Kapuściński, jornalista de uma agência estatal polonesa durante o regime comunista, foi autor de uma obra riquíssima. Escreveu livros sobre a União Soviética (Imperium, infelizmente esgotado no Brasil), o conflito travado entre El Salvador e Honduras (A Guerra do Futebol, inédito no Brasil), a queda do dirigente iraniano Reza Pahlevi (Xá dos Xás, também inédito). Mas é na África que seu talento como observador atento e humilde se manifestou na sua melhor forma.

Os relatos de Kapuściński sobre as peculiaridades, as tragédias e a riqueza do continente são inesquecíveis. Mas é bom lembrar que se trata de um livro de memórias, em que o jornalista é o personagem. E que personagem esse Kapuściński! Nunca vou esquecer a impressionante descrição de seu ataque de malária, a luta que travou contra uma cobra, a patética e inútil tentativa de fugir de barco de uma ilha, sua frustração ao constatar que seu apartamento tinha sido novamente arrombado. Mas a força do seu texto está, sobretudo, na descrição da África e de seus habitantes. Kapuściński não procura por aquele “algo” que inspira tantos viajantes. Quer conhecer, entender, relatar o que viu. É um jornalista. Não perde tempo se lamentando que sentia saudades da mãe ou dos amigos – um mal de todos esses relatos, mesmo os jornalísticos -, mas se concentra em descrever coisas como os hábitos de uma simples lagartixa africana – e como lagartixas podem ser interessantes na mão de um escritor tão talentoso.

Usando metáforas, descrição da natureza, do clima (o calor, o calor, o calor) e, sobretudo, não só travando contato com os locais mas compartilhando experiências, Kapuściński passa ao leitor o que é a experiência africana. George Orwell, um escritor proveniente de uma família de classe média, retratou a pobreza parisiense de forma impressionante ao viver como um indigente nas ruas de Paris da decáda de 1920. Embora tenha ido a África como jornalista, Kapuściński evitou o “circuito branco” africano – é bom lembrar que se trata de um livro que cobre várias decádas, da descolonização até o recente drama da maioria dos países africanos.

Nenhum estudo da ONU sobre a seca poderia ser tão dramático quanto o desespero que o jornalista relata, quando se vê isolado, sem água, em pleno deserto do Saara. Mas o próprio Kapuściński admite que seu livro não é uma descrição completa da África, mas, sim, sobre alguns aspectos do continente. Ele é um branco, um ocidental, e, embora seja a época da descolonização e os brancos não sejam mais os senhores, o choque cultural é evidente. Isso fica evidente no texto “Eu, o branco”. Mas, não custa repetir, Kapuściński quer entender as diferenças entre a mentalidade européia (ou branca) e a africana. Quando nota, um pouco impaciente, que seu ônibus está demorando para partir de um pequeno vilarejo, pergunta a que horas o motorista pretende começar a viagem. A pergunta gera espanto: “o ônibus vai sair quando estiver lotado”. O tempo, essa invenção ocidental, não dita as regras no continente. O que sucita um relato interessantíssimo – e, por que não?, belíssimo – sobre a importância (ou a falta de) do tempo para os africanos. É uma injustiça que o escritor, tantas vezes indicado ao Prêmio Nobel, nunca tenha levado a honraria.

Kapuściński é um apaixonado pela África, mas um amante honesto. As guerras, os ódios étnicos, a corrupção, a fome provocada artificialmente, tudo isso está no livro. Há muito tempo os brancos deixaram o continente, e, embora sua presença ainda exista e possa ser considerada nefasta, são os negros africanos os maiores responsáveis pela mazelas. “No século XX, assim como os brancos mataram mais brancos que negros, os negros mataram mais negros que os brancos.” Sua descrição da história da miserável Libéria, o país construído por escravos americanos libertos, e que, muito antes da África do Sul, instituiu um sistema de Apartheid, são um balde de água fria para àqueles que acreditam na bondade nata do ser humano, ou que a cor da pele define o caráter de um homem.

Mas seria injusto terminar este texto com a descrição dos horrores que tornam a maior parte da história do continente tão triste. As imagens que se fixaram na minha mente quando li o livro, não incluem apenas a procura diária por comida, os crimes dos warlords, os exércitos de crianças portando armas automáticas, mas também a ligação emocionante que os africanos sentem com seus antepassados, a importância comunitária de uma mangueira num vilarejo de uma região desértica, e – essa é alma do livro – as pessoas que o jornalista encontrou nas suas viagens pelo continente.