Trama Internacional

terça-feira, julho 21, 2009

Trama InternacionalUm banco que mata pessoas. Como é podre o capitalismo. Você já viu a empresa que mata pessoas (“O Jardineiro Fiel”, “Ameaça Virtual”) e até o escritório de advocacia que responde à bala (“A Firma”, “Conduta de Risco”). Agora são os grandes bancos. Não bastam as maracutaias financeiras de sempre, “Eles querem o controle de tudo”, diz um personagem de “Trama Internacional” (2008) sobre o banco do filme, O IBBC. E, de fato, esse é um banco muito, muito mau.

Baseado em parte no escândalo do extinto BCCI, um banco paquistanês que lavava dinheiro de terroristas e traficantes, “Trama Internacional” mostra os esforços de uma agente da Interpol (Clive Owen) e de uma promotora de Nova York (Naomi Watts) para deter uma instituição financeira que quer controlar as guerras do Terceiro Mundo.

Anti-capitalist posterAlém desse plano digno de um episódio do Agente 86 (ou de um filme da série “Austin Powers”), o filme conta com diálogos que parecem ter saído de uma ópera de madame Mao ou de uma velha peça de Bertolt Brecht. “Você pode me matar, mas outros cem vão tomar meu lugar, e você sabe disso”, diz o banqueiro malvado, antes de levar um tiro. “Não comemorem a morte da besta, homens; a cadela que lhe deu a luz está no cio novamente”, poderia ter dito em seguida o personagem de Clive Owen.

E como matar essa cadela? Não é com CPIs e trabalho burocrático, mas com muitos tiros e socos. Um tiroteio no museu Guggenheim de Nova York toma 14 minutos do filme. É talvez a única seqüência interessante, mas deixa uma sensação de que tudo não passa de uma cópia rasteira da série “Jason Bourne”. O plágio parece ainda mais gritante porque, como na série estrelada por Matt Damon, “Trama” também tem uma queda pelo “circuito Elizabeth Arden”. Clive Owen passa por Berlin, Nova York, Milão, Lyon e Istambul – parece até um daqueles letreiros jecas de joalherias.

Não há nada errado em escolher símbolos do capitalismo como vilões. O tema já rendeu o excelente “Robocop”, de Paul Verhoeven, um filme que soube abusar do caricatural para falar de violência, privatizações e planos mirabolantes de combate ao crime. Mas o diretor de “Trama”, o alemão Tom Tykwer, responsável pelo superestimado “Corra, Lola, Corra”, não é nenhum Verhoeven. E seu IBBC não é nenhuma OCP.

A festa de Mugabe… e de Mswati III… e de Bokassa I

segunda-feira, março 9, 2009

Os números da festa nababesca que Robert Mugabe, o ditador do Zimbábue, ofereceu ao completar 85 anos, no dia 28 de fevereiro:

– Duas mil garrafas de champanhe Moët & Chandon

– Oito mil lagostas

– Três mil patos

– Quatro mil porções de caviar

– Oito mil caixas de chocolate Ferrero Rocher

– Cinco mil garrafas de uísque Johnny Walker Blue Label

– Cem quilos de camarão (Vergonhoso, Mugabe. Ibrahim Sued, na comemoração dos 30 anos de sua coluna em “O Globo”, em junho de 1983, ofereceu 120 quilos do crustáceo para seus convivas)

Segundo os organizadores, a festa custou cerca de US$ 250 mil (R$ 594 mil)

Alguns números do Zimbábue de Mugabe:

– Sete dos doze milhões de habitantes do Zimbábue precisarão de ajuda alimentícia este ano para sobreviver, segundo a ONU

– 94% de desemprego

– Três mil mortos num recente surto de cólera

– 1,8 milhão de zimbabuanos são portadores do HIV

– Expectativa de vida é de 37 anos para homens e 34 para as mulheres

– 98% de inflação diária (isso mesmo, diária)

– 3,4 milhões de refugiados

Post anterior sobre o Zimbábue e Mugabe.

E em algum lugar da África…

A festa de Mugabe pode ser considerada tímida para os padrões do continente. Em setembro de 2008, na Suazilândia, o rei Mswati III não poupou despesas na “Festa 40/40”, para comemorar os 40 anos da indepêndencia do país e o seu próprio aniversário. Mswati reina num dos países mais miseráveis da África e também a última monarquia absolutista do continente. Um rei playboy que não esconde o gosto pelo luxo, com uma coleção de 13 mulheres e dezenas de carrões. Mesmo com a economia do seu país sendo uma tragédia e 26.1% dos suazis infectados pelo HIV – ele propôs, em 2001, a abstinência sexual para todos os suazis como maneira de conter a epidemia –, Mswati  achou que havia motivos para comemorar. A tal “40/40” custou 1,5 milhão de libras. O ponto alto da festa foi sua entrada no estádio de Mbabane, a capital, desfilando num BMW novinho em folha – um dos 20 comprados para a ocasião – vestido em uma roupa feita de pele de leopardo. Robert Mugabe compareceu ao evento.

Bokassa Coronation

Mas as festas extravagantes desses déspotas africanos não são nada se comparadas à famosa coroação do “imperador” Jean-Bédel Bokassa, em 1976.

Governante da miserável República Centro-Africana de 1966 a 1979, o rídiculo Bokassa foi um político heterodoxo até para os padrões africanos – o que não é fácil no continente de Idi Amin, Mobutu e Muammar al-Gaddafi. Foi soldado do exército colonial francês, tendo participado da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Indochina. Chegou ao poder em seu país por um golpe de estado. Provocou um escândalo na França quando presenteou o então ministro das Finanças francês, seu amigo de Valéry Giscard d’Estaing, com dois enormes diamantes. Se converteu do catolicismo para o islamismo, quando quis se aproximar dos líbios, mas, alguns anos depois, mudou de idéia e voltou para a Igreja de Roma.

Como ditador, Bokassa não decepcionou ao fazer novas leis. Resolveu punir com multa ou prisão quem não tivesse emprego e permitir que tambores fossem tocados apenas à noite e nos finais de semana. (Fome, mosca tsé-tsé, pobreza e rebeldes eram – e continuam sendo – os principais problemas do país.)

Mas o ponto alto da sua carreira foi ter transformado a República Centro-Africana num império. Em 1976, Bokassa achou que o status de monarca proporcionaria mais respeito ao seu país miserável. Realizou uma cerimônia de coroação inspirada na de Napoleão Bonaparte – aquela em que o petit caporal tirou a coroa das mãos do papa, um exemplo para todos os megalomaníacos –, com custo estimado em 20 milhões de dólares (1/3 do orçamento do país; de fazer até os Bourbons corarem). Bokassa convidou dezenas de líderes estrangeiros para seu evento kitsch, mas ninguém compareceu.

Considerado um louco, Bokassa até mesmo foi – tal como Idi Amin – acusado de canibalismo. Tinha 17 mulheres e mais de 50 filhos. Em 1979, os franceses, já fartos de seu compartamento, apoiaram um golpe que derrubou o imperador e acabou com seu “Império Centro-Africano”. Bokassa morreu em 1996.

Obs: para quem não imagina até onde a locura de ditadores pode ir, a agência Magnum tem em seu acervo dezenas de fotos de Bokassa I e de sua inacreditável cerimônia de coroação.

 

A lei de Pelé

sábado, fevereiro 28, 2009

Entrevista de Pelé à revista Veja (Edição 2102, 4/3):

“Ganhei dinheiro com palestras e publicidade depois que parei de jogar. Fiz muitos comerciais, mas nunca de bebida alcoólica, política, religião ou tabaco.”

Claro…

65080_27

O Leitor

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Mais um filme sobre o holocausto…”, seria apropriado dizer. Um tema já explorado ao extremo e que raramente resulta em boas surpresas – “O Pianista”, de 2002, foi a última –, ganha o que seria um novo olhar com “O Leitor”, atualmente em cartaz.

Um “novo olhar” porque esse filme propõe examinar o ponto de vista alemão do holocausto, a estranha convivência com assassinos no pós-guerra e o conhecido tema da “banalidade do mal”, em que os criminosos não se dão conta da brutalidade de seus atos e os justificam com a desculpa de que eram meramente parte de uma imensa engrenagem burocrática – “eu apenas cumpria ordens” deve ser uma das expressões alemãs mais famosas.

Alemanha, 1958, num dia chuvoso, o jovem Michael (David Kross), de 15 anos, está voltando para casa e começa a sentir mal. É acudido por uma mulher de trinta e tantos anos (Kate Winslet) que o acompanha até perto de sua casa. Passam-se alguns meses e Michael está melhor, pronto para visitar e agradecer a mulher que o acudiu. Uma cena de sedução depois, começa entre os dois um relacionamento sexual. Hanna também gosta que Michael leia para ela, de livros infantis a clássicos antigos. Certo dia, Hanna some da vida de Michael.

Anos depois, Michael, já um estudante de direito, é convidado por seu professor (Bruno Ganz) a acompanhar um julgamento. Para a surpresa de Michael, é Hanna, junto com outras mulheres, que está sentada no banco dos réus. A acusação: ter sido guarda de um campo de extermínio na Segunda Guerra.

“O Leitor” foi baseado na obra homônima do escritor alemão Bernhard Schlink. O livro ganhou notoriedade quando foi indicado pela influente apresentadora americana Oprah Winfrey em seu “Clube do Livro”. No Brasil foi publicado há dez anos pela Nova Fronteira, agora ganha uma nova edição pela Record (R$ 29).

Infelizmente, “O Leitor” é mais um filme burocrático, morno e previsível sobre o holocausto.

Não se pode culpar inteiramente o diretor Stephen Daldry (“As Horas”, “Billy Elliot”) pelo resultado. O próprio livro de Schlink não era lá grande coisa, mas Daldry leva seu filme de maneira previsível, abusando de alguns recursos (o filme está repleto de música dramática e inúteis recursos de sobreposição de imagens). A fragilidade da coisa toda fica óbvia quando é perceptível que Daldry preparou com satisfação – e com direito a flashbacks (é “Os Suspeitos” sempre fazendo escola) – uma surpresa que todos já haviam percebido no começo do filme

Para piorar, os atores não fazem melhor. Kate Winslet foi indicada ao Oscar por seu papel, mas ele o interpreta tão burocraticamente que mesmo suas cenas de nudez têm pouco apelo – o que é imperdoável para alguém que tem um belo corpo. Mas o pior mesmo fica com o Michael mais velho, interpretado pelo sempre soporífero Ralph Fiennes. São dele algumas das piores cenas do filme, incluindo um desnecessário momento de “eu vou te contar uma história”

Mais grave, porém, são os problemas morais do filme.

Não é necessário ir tão longe como o escritor Ron Rosenbaum – autor do excelente “Explaining Hitler”, traduzido no Brasil com o inacreditável título de “Para entender Hitler” (Record) – que acusou o filme de sugerir que “lack of reading skills is more disgraceful than listening in bovine silence to the screams of 300 people as they are burned to death”.

O próprio livro é problemático. Ao usar a deficiência de Hanna como uma metáfora óbvia para a ignorância, Schlink passa para o leitor a idéia de que muitos assassinos foram empurrados para a máquina do holocausto pelo destino ou por motivos compreensíveis. Perguntar a alguém “O que você faria?”, como o filme e o livro fazem, e esperar um “Não sei” ou simples silêncio como resposta é repugnante.

Rosenbaum acertou em cheio quando disse que “não precisamos de mais um filme redentor sobre o holocausto”.

Para piorar, um filme que propagandeia as maravilhas da leitura.

“Sprechen sie talk?”

É conhecida a visão dos chefões de estúdio de que os americanos não gostam de ler legendas. Essa filosofia muitas vezes resulta em cenas engraçadas em que personagens estrangeiros falam alguma frase introdutória em uma língua qualquer para logo continuar o diálogo ou monólogo na língua do Dr. Johnson. Também acontece de os personagens forçarem um sotaque na língua que supostamente estariam falando. Assim não é incomum assistir a russos que falam entre si com sotaques pavorosos – famoso é o caso de Sean Connery, que usou o mesmo sotaque em “Os Intocáveis”, ao interpretar um irlandês, e em “A Caçada ao Outubro Vermelho”, ao vestir um uniforme russo.

Mas “O Leitor” inaugurou uma categoria totalmente nova na salada lingüística hollywoodiana: a leitura de textos em inglês por estrangeiros em seus respectivos países. Qual não é a surpresa observar que Michael, ao ler para Hanna, está segurando um livro em que se pode ler “The Adventures of Huckleberry Finn” em bom inglês! Recurso para facilitar a vida dos atores que devem entregar suas falas em inglês? As estantes de livros que aparecem ao longo também estão repletas de títulos em inglês… e publicados por editoras americanas. A escolha por facilitar a vida do espectador não familiarizado com alemão fica ainda mais cômica quando Hanna se alfabetiza e passa a escrever cartas em… inglês!

Pode ser um mero detalhe técnico, que para muitos não chega a influenciar, mas lembra aqueles filmes americanos deliciosamente toscos rodados no Brasil em que o merchandising aparece na forma de outdoors em inglês – quem assistiu “007 Contra o Foguete da Morte” deve saber do que estou falando.

O próprio Schlink insistiu para que o filme fosse rodado em inglês, justificando que a história da convivência numa sociedade pós-genocídio era universal – claro que a promoção inevitável de um filme americano nas vendas do seu livro também deve ter sido bem-vinda.

Morreu o pai do Playmobil

quarta-feira, fevereiro 4, 2009

Quem foi criança na década de 80 ou princípio de 90 dificilmente deve ter ouvido falar de Hans Beck. Entretanto, a criação desse alemão de Zirndorf, que morreu dia 30 de janeiro, aos 79 anos, é bastante conhecida: os bonecos Playmobil.

O primeiro boneco de Beck foi comercializado em 1974. Foi o choque do petróleo de 1973 que levou a Geobra – empresa na qual Beck era criador e ainda hoje fabrica os bonecos – a dar início à linha de Playmobils. Até então a Geobra favorecia a fabricação de grandes bonecas e outros brinquedos que usavam bastante plástico. Com o aumento dos preços, era necessário fazer mais com menos. Os bonecos de Beck caíram como uma luva.

Desde o começo Beck estabeleceu os temas para os Playmobils. O faroeste e os serviços públicos eram bem famosos, mas cobiçados pelas crianças eram mesmo os grandes Playmobils, como o barco pirata e o caminhão de bombeiros – duas peças que ainda são capazes de encantar um adulto pela precisão e beleza.

Nos 20 anos seguintes os bonecos de cabelo destacável e mãos em forma de garra da Geobra foram exportados ou licenciados para 70 países. No Brasil, foram fabricados sob licenciamento pela Troll e pela Estrela. (Era grande a diferença entre os Playmobils alemães e os da Troll. A empresa brasileira vendia temas que há anos tinham saído de linha na Europa. Mais gritante, porém, era a qualidade do plástico, que dava um aspecto “pirata” para os Playmobils da Troll – o melhor teste de qualidade para esse material ainda continua sendo a mordida de uma criança.)

O Playmobil nunca teve a inventividade do Lego – tampouco sua popularidade –, mas tinha algo em comum com seu rival dinamarquês: a capacidade de incentivar coleções. O universo Playmobil era vasto e variado – como mostra o site Collectobil, que possui um catálogo de todos os Playmobils organizados por temas. Hoje em dia, alguns desse temas podem até ser considerados politicamente incorretos, como os bonecos operários de construção civil que vinham acompanhados de um engradado com garrafas de cerveja.

Certa vez, Hans Beck declarou que não gostaria de misturar os seus Playmobils com ETs, dinossauros e um Boeing 747. A Geobra não respeitou sua vontade: nos últimos anos, só o Jumbo ficou de fora.

Mas por onde andam os bonecos? Uma ida a uma loja de brinquedos brasileira mostra por que o Playmobil parece ter sumido do universo infantil: mesmo o dinossauro desprezado por Beck não custa menos de 150 reais. Depois que a estrela saiu de cena, o Playmobil ficou vários anos ausente do país, até que voltou pela Sunny Brinquedos, mas como produto importado da Alemanha. Diante da concorrência chinesa e seus brinquedos baratos cheios de chumbo e amianto, o Playmobil parece ter se tornado um brinquedo viável apenas para os mais apaixonados.

“Just die already!”

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Romances e contos quase sempre resultam em adaptações cinematográficas radicalmente diferentes ou, o que é mais comum, em filmes insatisfatórios. Existem exceções, é claro, e também existem até os filmes que eclipsam livros baratos. A discussão é antiga e raramente resulta em alguma opinião nova. Mas quando se trata de adaptar F. Scott Fitzgerald para o cinema, era de se esperar que o resultado fosse no mínimo digerível.

Mas as obras de Scott não têm sorte. Seu livro mais famoso, “O Grande Gatsby”, já rendeu quatro filmes. Pouco se sabe sobre o primeiro, atualmente perdido, mas as outras adaptações – inclusive uma roteirizada por Francis Ford Coppola, em 1974 – deixaram muito a desejar. Não foi diferente com “O Último Magnata” (1976) e “Suave é a Noite” (1962).

Agora é a vez de “O Curioso Caso de Benjamin Button”, um conto escrito por Fitzgerald em 1921, ganhar uma versão cinematográfica, atualmente em cartaz. No conto – publicado no Brasil na antologia “Seis Contos da Era do Jazz” (título estranho para um livro que contém nove contos) – Benjamin Button é uma criança que nasce com m problema curioso: é velha, sofrendo com todos os problemas de um típico ancião; alta; tem uma longa barba; fala como um adulto. Seus pais abastados, longe de comemorar o nascimento do primogênito, o desprezam imediatamente e o isolam, temendo serem ridicularizados pela sociedade local (Baltimore, década de 1860).

O que acontece a seguir é uma série de situações engraçadíssimas em que Benjamin (seus pais teriam preferido chamá-lo de Matusalém) é forçado pelo pai a se comportar de acordo com sua idade real – brincadeiras, travessuras; embora Benjamin prefira acender um charuto e conversar com seu avô sobre amenidades e o clima. Nada dá certo para Benjamin. Quando ele tenta entrar para a universidade de Yale, o reitor o expulsa porque acha que o velhinho que afirma ter dezoitos anos só pode ser um lunático.

Podia ser um conto de uma piada só, mas Fitzgerald adiciona mais um elemento fantástico: Benjamin, ao contrário, de todos que o cercam, está ficando a cada dia mais jovem. Não demora para ele arrumar uma esposa. Quando ela começa a se aproximar dos 40, Benjamin, que já parece ter menos de 30, passa a desprezá-la pela decadência física. A regressão física de Benjamin também é acompanhada da mental. Longe de ficar mais sábio, ele vai ficando mais imaturo, mais infantil. Até que…

É uma farsa de primeira, e é de se imaginar o que um Lubitsch ou um simples episódio de “Twilight Zone” teria feito com tal história. Infelizmente, ela demorou mais de 80 anos para ser adaptada e foi logo cair nas mãos do diretor David Fincher e do roteirista Eric Roth.

Fincher se notabilizou por dirigir filmes falsamente densos que foram sucessos de público, como “Clube da Luta” e “Seven”. Neste filme ele usa a mesma mão pesada e pouco imaginativa para transformar o que devia ser uma comédia num dramalhão interminável. A culpa não é só dele, já que é gritante a influência do roteirista Eric Roth. Responsável pelo roteiro de “Forrest Gump”, Roth repete a fórmula do sucesso de 1994: Button não mais vive no século 19, agora ele nasce do último dia da Primeira Guerra e sua trajetória se confunde com os acontecimentos do século 20. Ele “sai para ver o mundo”, indo para lugares exóticos e conhecendo gente curiosa. Um único elemento do conto permanece inalterado: o fato de Benjamin nascer velho e se tornar mais jovem a cada dia que passa.

Ao contrário de “Forrest Gump”, Button não participa de tantos e interessantes acontecimentos, mas muitos elementos do filme anterior de Roth estão lá: a história é contada em flashback (embora que pela leitura de um diário – não conseguem pensar em coisa melhor em Hollywood?), Button vive um amor impossível e todas as pessoas que encontra o brindam com pequenas pérolas de sabedoria (não diferindo muito daquelas de biscoitos da sorte).

Desta vez, “A vida é uma caixa de bombons” dá lugar para uma gororoba sobre aceitar a morte e o inevitável fim. Button, que é interpretado por Brad Pitt (que na maior parte do filme está coberto de maquiagem, mais parecendo uma versão piorada do rosto de Jon Voight),parece ser um mero espectador da vida. Pitt não acrescenta nada para esse dramalhão, passando na maior parte do tempo a impressão que Fincher e seu diretor de fotografia estão gritando para que ele fique parado bem naquele ponto da tela verde e não atrapalhe os técnicos de efeitos especiais.

Com um protagonista desinteressante, o peso recai sobre os coadjuvantes. É cansativo identificar os óbvios alívios cômicos – lembre-se: transformaram o conto num dramalhão –: a galeria inclui a negra sem papas na língua, o capitão bêbado e o velhinho que conta histórias bizarras. Se no conto Benjamin se voltava contra seu amor de modo egoísta, aqui ele vive uma saga que atravessa décadas para tentar ficar com a personagem interpretada por Cate Blanchet (também coberta de maquiagem e manipulada digitalmente). É Cate que resolve, na velhice, contar para sua filha como foi viver um grande amor – um recurso já batido em “Titanic”. Nessas cenas “atuais”, Cate está agonizando numa cama de hospital de Nova Orleans enquanto o Katrina – um coadjuvante que não faz sentido – está batendo à porta.

Além das mancadas históricas – Pitt-Button passa uma boa temporada na Rússia em 1941, nem parece que o país está em guerra –, existem os problemas de narrativa. Por exemplo, em dado momento, Pitt descreve um acidente que Cate sofre em Paris (Paris, acidente – que novelão). O problema é que ele não estava lá para, posteriormente, fazer observações sobre a influência do acaso. Lembrou os furos do trash “Tubarão IV, A Vingança”.

Não é surpreendente que um filme tão ruim tenha recebido 13 indicações ao Oscar. Fincher, mesmo que não compartilhe com seu colega Martin Scorsese a lamentável obsessão de ganhar um Oscar, que leva à obrigatória realização de filmes insípidos, fez um filme sob medida para a Academia. Filmes carregados de dramalhão gratuito e eficiente direção de arte, como “Uma Mente Brilhante” e “O Paciente Inglês”, já levaram a estatueta em outras ocasiões. Com Benjamin Button não deve ser diferente.

Aliás, do péssimo “O Paciente Inglês” só se salvou uma coisa. Num episódio clássico do seriado “Seinfeld”, o chefe de Elaine a leva para assistir ao filme do ano que está sendo comentado por todo mundo: “O Paciente Inglês”. Diante dos flashbacks do moribundo Ralph Fiennes, Elaine, que já não agüenta mais o filme, não se contém e, em pleno cinema, grita: “Oh. No. I can’t do this any more. I can’t. It’s too long. Quit telling your stupid story, about the stupid desert, and just die already!”, para espanto de todos que estão se emocionando com o drama.

É só trocar Fiennes por Blanchet.

Obs: se é para assistir a um filme-fábula sobre a inevitabilidade da morte, repleto de aventuras e um grande amor – e como bônus uma reflexão sobre a paternidade -, fique com o excelente “Peixe Grande” (2003), de Tim Burton.

A “revitalização” da praça do Japão

quarta-feira, outubro 15, 2008

Eleitoreira ou necessária, a reforma da praça do Japão, em Curitiba, teve o efeito de uma bomba nuclear. A prefeitura chamou a coisa de “revitalização”, mas conseguiu piorar o espaço em quase todos os aspectos.

O antigo piso foi trocado por uma versão mais barata e feia. Grandes extensões do gramado foram cobertas por esse piso, com o claro propósito de abrir mais espaço para barracas de comidas típicas no Haru Matsuri.

O novo piso teria a vantagem de ser “antiderrapante” e permitir a absorção de água da chuva (black rain) – claro, como se a praça enfrentasse problemas de drenagem e todos escorregassem por causa de mau carma…

Mas o aspecto mais deplorável – e visível – da reforma é a nova iluminação. A maior parte da praça recebeu luminárias dignas da área de serviço da casa de praia mais chinfrim. Mas o pior não é proporcionado pelas luzes “à la IML”: o portal e o pagode agora são iluminados por luzes violetas (!).

Conseguiram mesmo fazer a praça parecer um pedacinho do Japão: o dos bordéis freqüentados pelas tropas americanas durante a ocupação.

Enquanto isso, os usuários da praça continuam sofrendo o velho problema de acesso. Sem uma faixa de pedestres ou um semáforo, na hora do rush é quase uma missão kamikaze chegar até ela.

Atualização (21/10): a praça é do Japão mas as lâmpadas são made in China. As novas luzes violetas já apresentam defeitos. Reforçando a aparência de bordel, agora elas piscam.

What a Way to Go!

terça-feira, outubro 14, 2008

Pega esse bolivianos, Newman!

Paul Newman (1925-2008 )

Esqueça o Stanislavski-Strasberg e as comparações com Brando, Clift e Dean. Paul Newman não merece ser lembrado pelos maneirismos bestas do método russo ou porque fez parte de alguma geração. Os papéis de sujeito atormentado nem sempre lhe caíram bem. Seus trabalhos com grandes diretores – Hitchcock, Scorsese, Huston e Preminger – resultaram em filmes abomináveis ou tristemente datados. (Em “Cortina Rasgada”, de Hitchcock, Newman estava tão antipático que fez os vilões comunistas parecerem boa gente.)

Não, Newman não merece isso. Ele não fez mais que dez filmes decentes, mas é difícil imaginar alguém tão perfeito para os papéis que interpretou. Newman teve mais carisma que Brando, Clift e Dean juntos. Talvez por ter tido uma vida mais “careta” (foi casado por mais de 50 anos), ao contrário de seus três colegas, sabia ser engraçado. Brando ficaria rídiculo no papel de um presidiário rebelde que vira herói de seus companheiros, mas isso não aconteceu com Newman em “Cool Hand Luke”, um de seus filmes mais famosos.

O melhor Newman foi o de papéis que parecem descompromissados, em filmes que à primeira vista parecem banais. Ele foi genial em “Harper”, um típico filme policial dos anos 60 que servia de veículo para um astro. A trama mirabolante, que mistura a investigação de um seqüestro e culmina na descoberta de uma seita religiosa que contrabandeia imigrantes mexicanos, não é o principal atrativo. É Newman, um investigador picareta que vive pregando peças na ex-mulher, que segura o filme.

“Harper” pode não ser um dos filmes mais memoráveis de Newman, mas o que dizer das duas dobradinhas com Redford em “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (por que os distribuidores brasileiros não gostavam do Sundance?) e “Golpe de Mestre”? Esses dois filmes foram dirigidos por George Roy Hill, que também chamou Newman para estrelar a (sem exagero) obra-prima “Slap Shot”, de 1977.

Nesse filme em que a violência no esporte – e num dos esportes mais violentos, o hóquei – foi usada na forma mais grotesca e engraçada já imaginada, Newman interpretou o capitão de uma equipe fracassada (em número de títulos e público) prestes a ser vendida. Ele não é responsável pelas cenas mais engraçadas – Newman sabia fazer rir, mas não era do tipo comediante -, é, antes de tudo, o sujeito que mantém a equipe unida e tenta reverter o destino de seus protegidos.

“Slap Shot” foi o último grande filme de Newman. Nos 30 anos seguintes ele até interpretou papéis dignos de nota em “The Verdict” (1982) e “Hudsucker Proxy” (1994), mas ganhou um Oscar justamente pelo fraco “The Color of Money” (1986), de Scorsese, uma continuação de “The Hustler” (1961), que Newman protagonizou 25 anos antes – “The Hustler” foi um dos poucos filmes em que Newman se saiu bem ao interpretar um personagem “atormentado”.

Deixando o ativismo político para trás – Richard Nixon o incluiu na sua famosa “lista de inimigos” por causa de seu apoio à candidatura de Eugene McCarthy – Newman se concentrou na filantropia. Doou todo o lucro de sua empresa de molhos de salada, a Newman’s Ow (que foi mais rentável que sua carreira cinematográfica), para a caridade.

Os últimos anos de Newman não deixaram filmes memoráveis. Ele passou a ser um coadjuvante de luxo em produções esquecíveis como “Road to Perdition”(2002) e “Message in a Bottle” (1999), e pareceu padecer do mesmo mal que acomete Michael Caine e atores das antigas pornochanchadas: ficar velho o torna mais respeitável e perdoa interpretações no piloto automático.

Em 54 anos de carreira cinematográfica, Newman se tornou uma figura tão familiar nas telas, seja nos grandes filmes ou nos medíocres, que sua perda não só causa lamentos pelo fim de um grande ator, mas também tristeza pela perda de um velho conhecido.

O que vale a pena assistir de Newman na opinião deste blogueiro (pra variar, os títulos brasileiros são, em todos os casos, tenebrosos):

“The Long, Hot Summer” (1958 ) – “O Mercador das Almas”

“The Hustler” (1961) – “Desafio à corrupção”

“Hud” (1963) – “ O Indomado”

“Harper” (1966) – “Harper – O Caçador de Aventuras”

“Cool Hand Luke” (1967) – “Rebeldia Indomável”

“Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969) – “Butch Cassidy”

“The Sting”(1973) – “Golpe de Mestre”

“Slap Shot” (1977) – “Vale Tudo”

Diplomas machistas

quarta-feira, setembro 24, 2008

Sufragistas americanas: vocês esqueceram a flexão no diploma!

Reforma política? Desoneração fiscal?

Não. Existem coisas mais urgentes. Você, mulher, se sentiu pouco feminina ao pegar seu diploma? Pois é, estava escrito “advogado”, assim mesmo, naquele espaço que informa qual é sua nova profissão. Você, mulher, achou que o diploma era uma conquista, algo que a diferenciava de sua avó condenada desde cedo à escravidão na cozinha e sua linha de montagem de negas malucas, mas o “advogado” denunciou que você só tinha caído em mais uma armadilha dos porcos chauvinistas, fazendo você se sentir uma mera reprodutora da era vitoriana.

Calma, não é preciso queimar sutiãs e desenterrar Betty Friedan, um projeto de lei em discussão no senado quer determinar “o emprego obrigatório da flexão de gênero para nomear profissão ou grau em diplomas”.  A autora do projeto, a senadorA Serys Slhessarenko (PT-MT), justifica a medida (só mesmo os porcos chauvinistas precisam de uma justificativa) porque “muitas instituições de ensino continuam a emitir seus diplomas, para todos, indistintamente, na flexão masculina, como se as profissões fossem designadas sempre por substantivos comuns para os dois gêneros”. E segue: “Ao contrário do que fazem os consultórios, os escritórios, as repartições públicas etc”.

O melhor de tudo é que a lei será estendida (“baseado no senso de justiça”) para os diplomas antigos – e gratuitamente ainda por cima. Basta você, mulher, exigir.

Mas e se você, mulher, for membro(a) do Corpo de Bombeiros ou da Polícia Militar? “Capitão” (você chegou lá, garota!) é algo tão feminino quanto levantar a tampa do vaso. Calma, um projeto de lei similar está em discussão na Assembléia Legislativa do Paraná, essa Berkeley das araucárias. Pretende que “a flexão do gênero deverá estar em consonância com o sexo do candidato ou ocupante do cargo eletivo, assim como nas designações de patentes, postos e graduações dos militares e do Corpo de Bombeiros”. O autor é o deputado Luiz Carlos Martins (PDT), que apresentou o projeto a pedido do escritor Albino de Brito Freire (num esforço conjunto para combater a obrigação genética e cultural que faz os homens se comportarem como patres famílias).

Além disso, “o projeto representará a normatização da nomenclatura dos cargos públicos”.

Ainda é pouco.